Contos de suspense de Marcelo Gomes - Morte anunciada

 


“Morte anunciada”

 

Marcelo Gomes

 

 

Eddie Mase recebeu um envelope, na manhã seguinte após resolver os crimes do assassino da navalha e dentro dele uma carta de recomendação direcionada ao comandante da Scotland Yard, nela dizia o quanto seu novato detetive se esforçara em um crime quase sem solução e que suas habilidades e raciocínios rápidos o levaram a resolver o caso em um tempo recorde. Dizia também que Eddie Mase se formara em primeiro lugar na Academia de Polícia, sendo um aluno promissor e de um futuro brilhante.

Eddie Mase não podia estar mais feliz, sempre sonhou em fazer parte da elite da polícia londrina e quando criança dizia para sua mãe que um dia seria um policial e que prenderia bandidos perigosos, mas nunca imaginou que seria em tão pouco tempo.

Eddie limpou sua mesa e se despediu de seus colegas agradecendo por toda ajuda que teve nesse pouco tempo de delegacia, o Comissário estava muito feliz por Eddie e lhe presenteou com um relógio de bolso.

- Não precisava Comissário, o senhor já fez muito por mim, mas obrigado.

- Você merece Eddie e, além do mais, você vai usar muito esse relógio, o pessoal de lá é muito pontual e irão cobrar de você, pois cada minuto conta em um novo caso e você vai precisar de toda ajuda possível e sabe que pode contar comigo sempre.

Eddie deu um longo abraço no comissário e se despediu com lágrimas nos olhos.

            Eddie chegou à Scotland Yard na segunda de manhã bem cedo e foi direto ver o capitão Hasting. Era um homem alto e forte, tinha um bigode grisalho e aparentava ter uns sessenta anos, o Capitão já o esperava com

um sorriso e seu charuto em mãos.

- Bem vindo Edd

ie, ouvi falar muito bem de você.

- Obrigado Capitão, é um prazer fazer parte de sua equipe.

- Deixa eu te mostrar sua sala e apresentá-lo ao seu Assistente.

- Eu tenho um Assistente? Não sabia disso.

- Sim, e ele é muito esforçado, um rapaz inteligente e bem prestativo.

- Lá está ele Edd

ie, é aquele rapaz magro de terno cinza. Peter, chamou o Capitão.

- Esse é o detetive Edd

ie Mase, nosso novo colega, você vai ser seu Assistente a partir de hoje.

- Muito prazer senhor Mase, ouvi falar muito do senhor e de como lidou com o caso do assassino da navalha, você foi brilhante.

- Muito obrigado Peter, espero fazer um bom trabalho por aqui, e que nós dois sejamos uma equipe vencedora.

- Venha Eddie, entre em sua sala nova e fique à vontade, se precisar de algo estou em minha sala.

Eddie agora tinha uma sala maior e com vista para o centro da cidade, podia ver ao fundo o rio Tâmisa e um pouco das docas, tinha uma mesa grande e uma estante cheia de livros sobre crimes e assassinos em série, Eddie gostava muito de ler todo tipo de livro e não saía de casa sem ler seu jornal diário.

Em cima de uma escrivaninha tinha uma pilha de jornais velhos, Eddie começou a olhar e achou um com a manchete de capa sobre o assassino da navalha em que dizia:

“Jovem detetive desvenda caso de serial killer.”

Eddie sorriu e guardou o jornal em uma gaveta de sua mesa.

Peter entrou em sua sala e depressa se recuperando do fôlego disse:

-Temos um crime senhor, o corpo de um homem foi encontrado nas docas.

- Nas docas Peter, como você soube?

- O Comissário de polícia ligou para o capitão e pediu que repassasse a informação ao senhor.

- Está bem Peter, então vamos até lá agora, pegue um bloco de anotações e um par de luvas, espero você lá embaixo na carruagem.

- Vamos Peter rápido! Antes que aqueles policiais incompetentes contaminem a cena do crime.

-Sim senhor, estou indo.

Toque direto para as docas, disse Eddie para o condutor da carruagem.

 

A cena do crime

 

Eddie observou ao chegar que havia muita gente em volta do corpo, inclusive alguns repórteres e vários curiosos. Já foi pedindo que todos saíssem da cena do crime, inclusive alguns policiais que só estavam ali sem fazer nada.

- Bom dia colegas, sou Eddie Mase, Detetive da Scotland Yard, quem é o encarregado de vocês?

- Sou eu senhor Mase, fui o primeiro a chegar junto com meu colega, que está perto do corpo.

- Isole a área e tire toda essa gente que está aqui, ficam somente os policiais no local, quem achou o corpo? Perguntou Mase.

- Foi um pescador, senhor, aquele homem robusto que está ali com um dos meus policiais.

- Chame ele para mim e peça para alguém me trazer um copo de café, preciso de cafeína para pensar direito.

O homem se aproximou de Eddie e logo o reconheceu, já tinha visto sua foto em um jornal local.

- O senhor é o detetive Mase, já tinha visto o senhor em uma foto de jornal, sobre aquele caso de assassinatos em série, o senhor agora é famoso.

- Sim sou eu mesmo, detetive Eddie Mase da Scotland Yard, você lembra que horas encontrou o corpo e se tinha alguém suspeito por perto. Perguntou Mase.

- Eram seis e meia, mais ou menos, eu costumo pescar bem cedo e nesse dia resolvi vir para o lado das docas, no inicio achei que era um bêbado caído, mas quando cheguei perto vi que o homem estava completamente nu. em seguida chamei os policiais.

- Mais alguém por perto além de você?

- Não senhor, mas lembro de ver um homem me observando do alto daquela escada de acesso ao píer.

- E como ele era, você reconheceria esse homem se o visse de novo?

- Muito difícil senhor, tinha um pouco de neblina e ele ficou apenas alguns segundos ali, mas consegui ver sua roupa, vestia uma capa preta e chapéu, parecia ser um homem de bom gosto e de classe alta, se é que me entende.

- Está bem, vou precisar que você repita tudo isso ao meu assistente e depois pode ir.

- Peter pegue o depoimento desse homem e anote tudo em seu bloco de anotações, depois pode liberá-lo.

- Sim senhor Mase.

Eddie se aproximou do corpo e logo notou que o mesmo não tinha nenhum tipo de ferimento e nem sinais de luta, o corpo estava de bruços e com as mãos amarradas para trás com um lenço vermelho, começou a suspeitar que o lenço fosse do próprio cadáver. Chamou Peter e pediu um par de luvas.

- Peter você tem uma pinça com você?

- Sim senhor tenho, estou sempre preparado para tudo senhor.

- Muito bem Peter, continue assim e vamos nos dar muito bem. Dê uma olhada Peter, notou algo de diferente em seu rosto?

- Não senhor, deveria enxergar algo de anormal?

- Sim Peter, me passe a pinça e dê uma olhada no canto de sua boca, você vai ver que tem algo saindo, parece um pedaço de papel.

- Sim senhor, agora estou vendo, parece mesmo um pequeno pedaço de papel.

Eddie cuidadosamente puxou o papel da boca do homem, mas não era apenas um pedaço e sim um bilhete dobrado e sujo de sangue. Eddie o abriu e nele tinha uma frase escrita em latim, que dizia:

“Damnat peccata vestra ut animam tuam”.

 

- Você sabe latim Peter? Perguntou Mase ao seu assistente.

- Sim senhor, eu sei um pouco.

- Me diga o que está escrito aqui.

- Deixe ver se lembro, hum... Que seus pecadores... Não, que seus pecados condenem sua alma, é isso senhor.

- Muito bem Peter, mas o que isso quer dizer e por que estaria dentro da boca desse homem?

- Guarde esse bilhete como prova Peter e não pegue ele sem suas luvas, por favor.

- Claro senhor, já estou com elas.

A pergunta que Mase se fazia era por que o corpo estava nu e o que o bilhete queria dizer?

- Peter acho que esse homem não foi morto aqui, o crime aconteceu em outro lugar e depois foi deixado aqui para ser encontrado, será que alguém está tentando nos dizer algo?

- Ele pode estar querendo testar suas habilidades, ver se o senhor consegue pegá-lo.

- Não Peter ele é um homem inteligente, começo a suspeitar que ele teve ajuda de outra pessoa. Duas cabeças pensam melhor juntas, em primeiro lugar, temos que descobrir quem é a vitima e onde ele estava ontem à noite, ele deve ter sido assassinado entre as dez e meia-noite, nesse intervalo. O assassino ou os dois tiveram tempo de trazê-lo até aqui, já que nessa hora as docas estão desertas e a neblina encobriria suas identidades.

- Vou pedir ao legista que faça uma autópsia e identifique o corpo o mais rápido possível, o tempo é crucial nessas horas Peter e estamos correndo contra ele.

Eddie estava lendo a matéria do jornal matinal quando toca o telefone em sua sala.

- Senhor Mase sou Frank o legista, o senhor pediu para ligar assim que tivesse a identidade do cadáver.

- Sim claro, quem é o nosso homem misterioso?

- Seu nome é Jonatan Weiss, é uma pessoa muito conhecida por aqui e vem de uma família muito rica, é proprietário de uma galeria de arte no centro da cidade, chamada The Portrait, é uma das mais famosas do país.

- Me diga qual foi a causa da morte?

- Asfixia por estrangulamento, mas tem outro detalhe senhor Mase, antes de ser estrangulado foi dopado com algum tipo de sedativo, que ainda não descobri, provavelmente colocaram em sua bebida.

- E o bilhete em sua boca tinha um pouco de sangue, algum ferimento nessa região? Perguntou Mase.

- Tinha um corte no lábio, mas pode ter sido feito na hora da queda, por estar tonto e bater em algo, ou provavelmente ao cair direto no chão. O lenço pertencia à própria vítima, pois o perfume que estava no corpo era o mesmo do lenço.

- Muito obrigado por enquanto senhor Frank, se descobrir algo mais me ligue imediatamente.

Com certeza senhor Mase, tenha um bom dia!

Mase desligou e chamou Peter em sua sala.

- Alguma novidade senhor Mase?

- Peter temos a identidade da vítima, seu nome é Jonatan Weiss e dono de uma galeria de arte no centro da cidade, peque seu bloco de notas e venha comigo, vamos até à galeria.

Chegando à galeria que ficava em um bairro nobre de Londres, Mase notou que a mesma estava fechada e tinha um cartaz em sua porta que dizia:

Estamos de luto, sem data de retorno.

Mase notou movimento dentro da galeria e resolveu bater na porta. Uma mulher muito elegante e de cabelos ruivos abriu a porta.

- Estamos fechados como diz no cartaz, sem data para reabrir, em que posso ajudá-los senhores?

- Sou o detetive Eddie Mase e esse é meu assistente Peter, podemos entrar um pouco? Preciso fazer algumas perguntas sobre o dono da galeria, o senhor Jonatan Weiss.

- Entre detetive e fique à vontade, querem algo para beber? Um café ou algo mais forte? Perguntou a mulher ruiva.

- Não obrigado, já tomei um café agora a pouco e é muito cedo para algo mais forte.

A mulher os conduziu até uma sala nos fundos da galeria, parecia ser o escritório do senhor Jonatan, o lugar era muito requintado e tinha várias pinturas de artistas famosos.

- Sentem-se, por favor, Eu não me apresentei, sou Cléo, a gerente da galeria.

- Senhorita Cléo me diga, você teve contato com o senhor Jonatan no dia de ontem?

- Sim, ele sempre vem até à galeria na parte da tarde, fica um pouco, me dá algumas tarefas e depois vai embora, e só voltando no dia seguinte, estou muito chocada com sua morte e ainda não acredito que isso aconteceu, ele era um homem bom.

Pensou um pouco e com lágrimas nos olhos disse:

- Jonatan tinha um namorado e eles viviam discutindo, sempre que ele aparecia na galeria pedia dinheiro a Jonatan.

- Não sabia das preferências sexuais do senhor Jonatan, você quer um lenço?

- Obrigado detetive. Jonatan tirou seu lenço do bolso e deu para a mulher que continuava a chorar.

- Você sabe o nome desse suposto namorado de Jonatan?

- É Felipe, ele é francês e trabalha nas docas.

- Nas docas você disse?

- Sim senhor, ele conheceu jonatan quando veio entregar uma encomenda de quadros que chegou de navio, depois disso começaram a sair juntos.

- Obrigado pelo seu tempo senhorita, se lembrar de algo mais me informe, vou deixar meu cartão com você, a qualquer hora pode ligar.

Eddie começou a suspeitar que o tal namorado fosse o segundo assassino, já que o homem visto pelo pescador era muito elegante e estava nas docas e era muita coincidência o tal namorado trabalhar nas docas, onde foi encontrado o corpo de Jonatan, e, ainda, o homem misterioso estar observando a cena do crime.

- Peter agora temos dois suspeitos, o homem misterioso visto pelo pescador e o tal namorado de Jonatan, temos que encontra uma ligação entre os dois e descobrir a identidade do outro homem.

- E se for só uma coincidência senhor Mase?

- Não existe coincidência nesse ramo meu amigo e há com certeza algum tipo de conexão entre eles e nós vamos descobrir, mas antes preciso fumar um charuto.

- O senhor fuma? Perguntou Peter.

- Comecei a fumar depois de resolver o meu primeiro crime, dá um certo charme fumar um charuto você não acha?

-Não sei senhor, não gosto da fumaça, me faz tossir, tenho asma, o senhor está se referindo do ‘assassino da navalha’?

- Sim meu caro, ele mesmo. Veja só uma tabacaria, vamos entrar.

Depois de comprar seu charuto cubano Mase, resolveu ir direto até às docas, queria conversar com Felipe sobre Jonatan e conferir se ele tinha um álibi para a noite anterior.

Vários homens trabalhavam naquela hora nas docas e Mase não tinha uma descrição exata do suspeito, então resolveu abordar o primeiro trabalhador que encontrou.

- Com licença senhor, sou o detetive Eddie Mase e procuro pelo senhor Felipe, me disseram que trabalha aqui.

- Eddie Mase! Nossa o senhor é famoso por aqui! Felipe está carregando caixas no barco Netune, é só seguir reto que vai encontrá-lo.

Felipe vestia um macacão azul e botas escuras, tinha tatuagens e

cabelo raspado, não pertencia ao mundo de Jonatan com certeza.

- Senhor Felipe, Eddie Mase da Scotland Yard, podemos conversar um pouco?

- Estou sendo preso por algo? Perguntou Felipe.

- O senhor tem algo a esconder, por

que está na defensiva?

- Geralmente quando um policial me procura é por que fiz algo errado e os problemas me procuram senhor.

- Não viemos prender o senhor e sim fazer algumas perguntas sobre Jonatan Weiss, o senhor já sabe do assassinato creio eu?

-Sim, fiquei sabendo essa manhã, sinto muito por ele, era um homem bom.

- Que tipo de relacionamento você tinha com a vítima> Fiquei sabendo que o conhecia.

- Quem disse que eu o conhecia?

-Cléo a gerente da galeria do senhor Jonatan, ela disse que vocês tinham um relacionamento, é verdade?

- Não, saímos só uma vez e foi só, depois nunca mais o vi.

- Não foi o que Cléo nos disse hoje, ela falou que você foi várias vezes na galeria pedir dinheiro a Jonatan, o que você me diz a respeito disso?

- Aquela mulher é uma mentirosa, só fui uma vez porque ele me devia dinheiro.

- Devia? Mas Jonatan era um homem rico por que deveria dinheiro para você?

- Pelos meus favores é claro, ou você acha que dormi com ele de graça, não gosto de homens, só faço pelo dinheiro.

- Então você faz sexo com homens por dinheiro?

- Mas é claro, você acha que vivo do que me pagam aqui? Morreria de fome se dependesse desse lugar.

- Onde o senhor esteve ontem entre dez e meia-noite?

- Estava fazendo a segurança de um ricaço no bairro Westwood, era um jogo de pôquer e tinha muita grana envolvida.

- Você tem como provar isso?

-Claro! É só ir até à casa do senhor Wallace, ele é dono da mansão onde trabalhei ontem à noite, ele vai confirmar que estive lá.

- E você ficou a noite toda lá?

- Fui embora lá pelas três da manhã, direto para casa.

- Está bem senhor Felipe, vamos verificar seu álibi, não saia da cidade talvez precise do seu depoimento por escrito.

- Sou um suspeito agora?

- Por enquanto todos são suspeitos, até que se prove ao contrário.

Eddie pegou uma carruagem e foi direto para a mansão do senhor Wallace, queria interrogá-lo o mais rápido possível, deixou um policial encarregado de seguir os passos de Felipe para evitar que ele saísse da cidade.

Já passava das dez horas quando Mase chegou à mansão de Wallace, dessa vez foi sozinho deixando Peter na Scotland Yard, antes de ir. A mansão ficava em uma parte alta da cidade e era rodeada por muros altos e cheios de plantas que davam um certo charme ao local, foi recebido pelo mordomo, que o levou até à biblioteca, onde estava Wallace fumando um charuto e lendo jornal.

- Com licença senhor Wallace, o detetive Mase está aqui para ver o senhor.

- Mande-o entrar e feche a porta.

- Bom dia senhor Wallace, sou o detetive Eddie Mase da Scotland Yard.

- Muito prazer senhor Mase, em que posso ajudá-lo?

- Preciso confirmar se o senhor conhece Felipe? Nossa não peguei seu sobrenome, o senhor pode me confirmar se ele trabalhou em sua casa ontem à noite?

- Sim conheço Felipe, ele sempre me presta serviços e ontem à noite fez segurança particular aqui, eu sempre jogo pôquer com uns amigos e tem muito dinheiro envolvido, todo o cuidado é pouco.

- O senhor pode me dizer quantas pessoas participaram do jogo de pôquer e o nome de todos que estavam aqui ontem à noite?

-Sim claro, estavam além de mim Patrick, Edward e Jonatan Weiss.

- Jonatan Weiss o senhor disse? O dono da galeria The Portrait?

-Sim ele mesmo e infelizmente eu soube de sua morte essa manhã pelo jornal.

- O senhor lembra se ele foi embora sozinho?

- Eu acho que ele foi junto com Felipe.

- Entendo. Ele era uma pessoa bem vista por todos, aconteceu alguma discussão entre os cavaleiros no calor do jogo que possa me dizer?

- Não que eu lembre, mas Patrick não gostava muito de Jonatan e vivia o ofendendo, pela sua opção sexual, se é que o senhor me entende? Às vezes ele nem vinha, sabendo que Jonatan estaria aqui.

- E o outro homem Edward, tinha um bom relacionamento com Jonatan?

- Com certeza que sim, eram amigos e ele frequentava muito a galeria de Jonatan, é um apreciador de artes e de cinema.

-Bom por enquanto é isso, o senhor pode me dizer como faço para entrar em contato com os dois cavaleiros?

- Sem problemas senhor Mase, Patrick mora perto da praça central em um apartamento com sua mãe, no edifício Shelton, número 45, apartamento 12 e Edward vive com seus pais, a duas casas daqui, no número 335, é uma casa branca com grades em volta.

- Muito obrigado pelo seu tempo, senhor Wallace.

- Disponha detetive, se puder ajudar em algo mais, é só entrar em contato.

Mase agora tinha mais um suspeito, seria Patrick o homem misterioso que o pescador viu no local do crime?

Antes de interrogar os próximos suspeitos Mase resolveu passar na central e analisar possíveis pistas dadas por Wallace sobre os tais homens. Estava intrigado com o fato de Jonatan estar no mesmo lugar que Felipe na mesma noite do crime.

- Não faz sentido Peter, Jonatan e Felipe juntos horas antes do crime e por que ele não nos contou que Jonatan estava na mansão, ele está escondendo algo e vou descobrir.

- Mas o senhor não acha que foi só uma coincidência os dois estarem ali? Felipe conhecia Jonatan, que conhecia Wallace e todos os outros, Felipe deve ter sido indicado por Jonatan.

- Você tem razão nesse aspecto, mas... Pensou um pouco antes de falar... - - E se Felipe e Patrick armaram para Jonatan estar ali naquela hora e depois os dois deram cabo dele juntos? Felipe pode ter ido para a casa de Jonatan e depois de alguns drinks o drogou, em seguida Patrick chegou e o matou com seu próprio lenço enquanto estava inconsciente, os dois juntos poderiam levar o corpo em um cobertor ou tapete sem levantar suspeitas, mas a frase em latim o que significa?

A frase fala em pagar pelos seus pecados e se Patrick além de não gostar de Jonatan fosse homofóbico a ponto de matá-lo por sua escolha sexual, o que o senhor acha dessa teoria senhor Mase?

- Acho que você daria um bom detetive Peter e que pode ter razão sobre isso.

- Obrigado senhor pelo elogio, mas nunca chegarei ao seu patamar.

- Nada é impossível meu caro, é só querer e você tem inteligência de sobra.

- Pegue seu bloco de notas e vamos até o local do crime, tem algo que deixei passar.

Mase estava de volta às docas, mas dessa vez não estava procurando por algo à mostra e sim uma pista perdida entre as pedras a beira do Tâmisa.

- Peter me ajude a subir nessa pedra.

- O que o senhor procura aí do alto?

- Não é no alto Peter, quero ter uma visão geral da cena do crime, me ajude preciso descer.

- Olhe aqui em volta onde estava o corpo, veja as pegadas entre as pedras, veja que apenas uma delas é mais profunda e faz com que as pequenas pedrinhas afundem com ela, é o tipo de marca da bota em que Felipe usava quando o interrogamos aqui nas docas, a sola é mais grossa e as marcas ficam mais evidentes.

- É verdade senhor Mase e Felipe não estava aqui no dia em que interrogamos o pescador, mas pode ser pegadas dele também.

- Não, o pescador é mais baixo e tem uma pegada menor, essa marca deve ser de alguém que calça 42 ou 43 e deve ter mais de um metro e oitenta, portanto Felipe é um de nossos suspeitos com certeza.

- Muito bem observado senhor Mase, por isso o senhor é o melhor. Disse Peter.

Mase decidiu ir até o apartamento de Patrick para interrogá-lo.

 

Interrogando Patrick

 

Mase chegou ao edifício Shelton exatamente às onze horas daquela manhã, era um edifício de proporções belíssimas e ficava em uma área nobre de Londres. Apertou o apartamento doze e uma voz feminina atendeu.

- Sim quem é?

- Sou o detetive Eddie Mase da Scotland Yard e preciso falar com o senhor Patrick, ele está?

- Sim, só um minuto vou abrir para o senhor.

- Olá senhor Mase, sou Vic a empregada, pode entrar, vou acompanha-lo até o apartamento onde o senhor Patrick o aguarda.

- Pode entrar e espere aqui na sala, vou chamá-lo em um minuto.

Mase se acomodou em um sofá e ficou observando os porta retratos em cima de uma estante, nele tinha fotos de Patrick em caçadas e

eventos com grandes magnatas da cidade.

- Senhor Mase, a que devo a honra de sua visita?

- Muito prazer senhor Patrick, você sabe quem sou, então não preciso me apresentar, gostaria de fazer umas perguntas sobre a noite de pôquer na casa do senhor Wallace.

- O que o senhor gostaria de saber, não é crime jogar pôquer, que eu saiba. Deu uma risada cínica.

- Claro que não, mas na verdade estou investigando o assassinato de Jonatan Weiss, como o senhor já deve saber, ele foi encontrado sem vida à beira do Tâmisa, completamente nu.

-Sim eu fiquei sabendo, mas se tratando daquele pervertido eu não esperava nada, além disso.

- Por que o senhor o chamou de pervertido?

- Ele era gay e se relacionava com homens de qualquer tipo, isso é um pecado aos olhos de Deus, o senhor não acha?

- Não penso como o senhor, acho que cada um deve escolher a vida que quer levar e não ser julgado pelas suas preferências sexuais, se é que me entende?

- Então o senhor simpatiza com esse tipo de gente? O senhor quer beber algo? Que indelicadeza a minha não oferecer nada.

- Não obrigado, estou a trabalho e não costumo beber a essa hora.

- Mas então um café?

- Não obrigado, estou bem, mas continuando, na noite de pôquer, aconteceu algum tipo de discussão entre o senhor e Jonatan?

- Que me lembre não, a única coisa que deixava ele desconfortável eram meus comentários sobre sua vida sexual, nada, além disso.

- E vocês saíram todos juntos do local no mesmo horário?

- Não, após terminar a partida de pôquer eu fui tomar um drink com Wallace e Edward, Jonatan foi embora em seguida, pois estava chateado de ter perdido um bom dinheiro e aquele homem que estava a serviço de Wallace foi junto.

- Então os dois foram embora juntos? O senhor me confirma isso?

- Se foram juntos eu não sei, mas saíram na mesma hora.

- O senhor mora sozinho ou tem esposa e filhos?

- Não sou casado, moro com minha mãe.

- Eu posso falar com ela?

- Infelizmente não, ela está na França visitando a irmã, mas por quê o senhor quer falar com minha mãe?

- Só queria confirmar o horário que o senhor chegou a casa.

- Sou um suspeito agora senhor Mase?

- Todos que estavam naquela casa são suspeitos, que horas o senhor voltou para casa?

- Bom, deixe-me ver, o jogo começou às seis e terminou lá pelas oito horas, depois conversamos, enquanto bebíamos e eu me lembro de olhar para o relógio na parede e ele marcava dez horas, então devo ter saído entre dez e quinze ou talvez dez e meia, não lembro ao certo.

- E o senhor Edward saiu junto com você?

- Não, Edward ficou só uns vinte minutos, estava cansado e tinha compromisso na manhã seguinte.

- Não lembra a hora exata? Eddie anotava tudo no bloco de notas de Peter.

- Acho que umas oito e meia, por aí.

- Por enquanto é isso senhor Patrick, obrigado por me receber e se lembrar de algo mais me ligue, esse é meu cartão, tem o número atrás, tenha um bom dia!

- Obrigado, igualmente, deixe que o acompanho até â saída.

Antes de sair Mase ainda fez mais uma pergunta:

- O senhor conhece um pouco de latim?

- Não e por que deveria? É uma língua morta há muito tempo.

- Nada não, só curiosidade.

- Não precisa me acompanhar, eu sei o caminho, passar bem.

 

Interrogando Edward

 

Eddie não estava satisfeito com o que ouvira, precisava interrogar Edward e ver se a história contada por Patrick batia com a sua.

Ligou de um telefone público para Peter e pediu que o encontrasse na casa de Edward em meia hora.

Enquanto fumava um charuto cubano apreciava a bela vista que o lugar tinha, em poucos minutos surgiu a carruagem trazendo Peter.

- Peter meu caro, sempre pontual.

- O que vamos fazer aqui senhor Mase?

- Interroguei Patrick e preciso saber se a história contada será a mesma de Edward, pegue o bloco de notas e anote tudo garoto, não quero perder nem uma vírgula.

Mase entrou na carruagem e foram direto para a bela casa de Edward.

Mase tocou a campainha e um senhor bem arrumado atendeu a porta.

- Posso ajudá-los cavalheiros, disse ele.

Já passava das duas e Mase ainda não tinha almoçado, estava com fome e um pouco cansado.

- Boa tarde senhor, sou o detetive Eddie Mase da Scotland Yard e esse é meu assistente Peter, gostaríamos de conversar com o senhor Edward, ele está em casa?

- Sim senhor ele está, entrem.  Ele está na sala de jogos, fiquem à vontade, vou chamá-lo.

- Edward apareceu com um chambre amarelo e chinelos com meias, parecia ter acordado há pouco.

- Boa tarde senhores, em que posso ajudá-los? Perguntou Edward.

- Sou o detetive Mase... Foi interrompido por Edward antes de completar a frase.

- Não precisa se apresentar, eu conheço o senhor do jornal, é muito famoso senhor Mase e quem é seu amigo?

- Claro que sim, o senhor não é o primeiro a me dizer isso, esse é Peter meu assistente.

- Mas a que devo o prazer da visita de uma celebridade como o senhor? Perguntou ironicamente Edward.

- Estou investigando a morte do senhor Jonatan Weiss, dono da galeria Portrait, o senhor o conhecia?

- Claro que sim, era um grande amigo, fiquei muito triste quando soube de sua morte.

- Quando o senhor o viu pela última vez?

- Foi no jogo de pôquer, na casa de Wallace na sexta-feira.

- E quem estava no local além de você e Jonatan?

- Além de nós dois e o dono da casa, Patrick e um rapaz que fazia a segurança para o senhor Wallace, estávamos em quatro na mesa e claro, o rapaz que ficou no lado de fora da casa.

- E tudo ocorreu bem durante o tempo que o senhor ficou por lá?

- Sim normal, tirando as piadas sobre gays que Patrick fazia para provocar Jonatan, de resto tudo normal.

- E depois que a partida se encerrou todos foram embora ou a noite se estendeu?

- Jonatan foi o primeiro a ir embora, junto com o rapaz da segurança, eu fui tomar um drink e colocar a conversa em dia com os outros cavalheiros, mas não fiquei muito tempo.

- Que horas o senhor foi embora mais ou menos?

- Acho que umas nove horas, pelo que me lembro?

- O senhor, analisando friamente, acha que alguém naquela sala teria motivos para assassinar Jonatan? Eduard olhou com cara de espanto para Mase e respirou fundo.

- Se alguém teria algum motivo eu não sei, além de Patrick que não gostava muito do falecido, mais ninguém, mas o senhor concorda comigo que não gostar de uma pessoa não é motivo para matá-la certo?

- No meu ramo não descarto nenhuma possibilidade e no mais todos são suspeitos até que se prove ao contrário.

- Então, eu também sou suspeito senhor Mase?

- O senhor estava com a vítima horas antes do crime, tenho que analisar todas as possibilidades até o momento. O senhor lembra de Jonatan estar usando um lenço vermelho nesse dia?

- Sim, era uma marca dele, andava sempre bem arrumado e com um lenço no pescoço, que variava de cor conforme a roupa que usava.

- E me diga uma coisa senhor Edward... Ele interrompeu Mase mais uma vez.

- Seu assistente não fala, só fica escrevendo nesse caderninho?

- Ele está aqui para me auxiliar e não para interrogar, eu faço as perguntas você responde e ele anota em seu bloco.

- Interessante método esse, novos tempos.

- Bom, de volta à pergunta anterior, o senhor conhece latim?

- Mas é claro que sim, é uma língua esquecida, mas ainda presente em grandes livros de história.

- Mas o senhor sabe algo sobre a língua ou fala um pouco?

- Estudei em um colégio de padres e era obrigado saber, fazia parte dos estudos, mas o isso tem a ver com o assassinato?

- Eu não disse que tinha, é apenas uma curiosidade, por hora é isso senhor Edward, se precisar do senhor novamente, entro em contato, tenha um bom dia.

- Obrigado senhor Mase e se precisar estarei aqui.

Mase entrou na carruagem e pediu que o condutor o levasse direto às docas.

- Por que vamos às docas novamente senhor Mase? Perguntou Peter.

- Quero falar com Felipe, ele me omitiu informações valiosas ao caso.

- Que informações senhor?

- Ele não me contou que estava com Jonatan na mansão, horas antes do crime, preciso saber o porquê?

 

 

De volta às docas

 

Eddie chegou às docas e foi direto procurar por Felipe, estava intrigado com sua história mal contada, queria respostas de imediato.

- Felipe! Gritou Eddie, preciso falar com você um minuto.

- O que foi agora detetive> Eu já disse tudo que sabia.

- Você não me disse tudo, por que não me contou que Jonatan estava na mansão com você no dia do jogo de pôquer e horas antes de ser assassinado?

- Não queria me envolver mais do que já estou, Jonatan e eu tínhamos um acordo e ninguém deveria saber se tivesse contado na ocasião você iria me prender e não posso voltar para prisão, prefiro a morte.

- Te tornar um suspeito não quer dizer que vou prendê-lo, preciso de provas para isso, me diga que número você calça?

- Eu calço quarenta e dois por quê?

- Se importaria se eu tirar uma amostra da sola de sua bota, fazer um molde?

- Por que isso agora detetive?

- Faz parte da investigação e não posso dar detalhes a você.

- Está bem como faço isso?

- Vá à delegacia amanhã e procure meu assistente Peter, mas me diga uma coisa, você sabe se Edward era muito amigo de Jonatan?

- Ele costumava frequentar a galeria de Jonatan e sempre estava nas festas e eventos que Jonatan participava, inclusive na galeria.

- E eles tinham algum tipo de negócio ou era apenas amizade?

- Pelo que sei, eles já tinham sido sócios em outra galeria, mas não deu certo e Jonatan abriu sua própria galeria. Na época os dois ficaram sem se falar por um bom tempo, Edward acusou Jonatan de roubar dinheiro da galeria e quase deu caso de polícia.

Eddie olhava com desconfiança para Felipe e levantava sempre a sobrancelha, quando dizia o nome de Jonatan.

- Mas depois disso voltaram a serem amigos?

- Sim e voltaram a sair juntos e frequentar festas com obras de arte.

- Todos disseram que você foi embora junto com Jonatan, isso é verdade?

- Junto não, saímos no mesmo horário, mas não juntos, fui a um Pub beber umas cervejas e depois fui para casa, Jonatan eu não sei dizer.

- Você tem como provar que estava no Pub, entre dez e meia-noite?

- Já disse fui para o Pub e depois para casa, a hora eu não lembro por que estava bêbado demais para lembrar, deitei na cama e apaguei acordando só no outro dia.

- Bom, como eu disse anteriormente, vá à delegacia amanhã e leve suas botas e não saia da cidade, senão terei que mandar prender você.

- Não sairei senhor Mase.

Eddie estava confiante de que Felipe era um dos assassinos, ainda mais depois de mentir sobre a noite antes do crime.

- Peter, temos um suspeito certo, Felipe está envolvido no crime e sabe mais do que está falando, mas ainda não posso provar.

- Mas e se as marcas das botas forem iguais as da cena do crime?

-Ai sim, teremos certeza que é ele e se o prendermos, chegaremos ao seu cúmplice.

Eddie se reuniu com Peter em sua sala a fim de analisar os depoimentos e provas encontradas na cena do crime.

- Peter, temos bastante material para analisar, junte todos os depoimentos e vamos ver se todos batem.

- Senhor Mase, o único que difere um pouco é o do senhor Edward, o horário que foi embora não está preciso e não bate com o de Patrick.

- Isso é intrigante Peter e ao mesmo tempo não me diz muita coisa, as pessoas podem se confundir com as coisas, após alguns copos de conhaque.

- E o bilhete escrito em latim?

- O único que conhece latim é Edward e ele já brigou com Jonatan tempos atrás, o coloque como suspeito número dois, depois temos Patrick, que não gostava de Jonatan por ser gay, mas isso não é motivo para matá-lo.

O telefone toca na sala de Mase, é Cléo a gerente da galeria de Jonatan.

- Senhor Mase é Cléo, a gerente da galeria, o senhor pode falar um minuto? Perguntou Cléo.

- Claro senhorita, pode falar.

- Andei vendo uns documentos da galeria e encontrei um cheque em branco assinado por Edward, antigo sócio de Jonatan, não sei se isso é importante, mas queria lhe contar.

- Claro Cléo, fez muito bem em me falar, posso mandar Peter pegar com você esse cheque?

- Pode sim, estarei aqui até às quatro horas.

- Está bem senhorita, ele já esta saindo, passe bem.

- Vá agora à galeria e pegue um cheque com a senhorita Cléo e volte imediatamente para cá.

- Irei agora senhor Mase.

Peter voltou depois de meia hora com o tal cheque em mãos e foi direto falar com Eddie.

- Está aqui senhor Mase, o tal cheque assinado por Edward.

- Hum, muito intrigante isso, por que um cheque em branco estaria na galeria de Jonatan e assinado por Edward?

- Vai ver Jonatan estava precisando de dinheiro e pediu emprestado para Edward.

- Pode ser Peter, ligue para Edward e peça que venha até meu escritório amanhã.

Na manhã seguinte às nove horas Edward já estava na sala de Eddie, enquanto Peter aguardava a chegada de Felipe.

- Bom dia senhor Mase, em que posso ajudar dessa vez?

- Bom dia Edward, sente-se e fique à vontade, aceita um chá ou café?

- Não obrigado, já tomei café antes de sair de casa.

- Preciso que o senhor me tire uma dúvida a respeito desse cheque em branco, que a senhorita Cléo encontrou junto aos documentos de Jonatan na galeria.

- Ah sim, eu me lembro desse dia, Jonatan me ligou pedindo um empréstimo para uma reforma na galeria, queria ampliar o espaço.

- E por que ele nunca foi descontado? Perguntou Mase com desconfiança.

-Por que ele mudou de ideia, achou que não conseguiria me pagar e desistiu da reforma.

- E quem mais sabe a respeito disso?

- Era um segredo nosso e morreu junto com Jonatan.

- Você poderia ler algo em latim para mim senhor Edward?

- Mas é claro senhor Mase, mas com qual finalidade?

- Preciso aperfeiçoar meu latim e vi uma frase em um livro que me chamou atenção, mas não sei o que diz, dê uma olhada, é essa frase:

Damnat peccata vestra ut animam tuam.

- Que seus pecados condenem sua alma, é o que diz na frase senhor Mase.

- Obrigado senhor Edward, é uma frase bem forte e ao mesmo tempo faz a gente pensar, o senhor não acha?

- Com certeza, quem a escreveu queria passar uma mensagem bem forte.

Peter entrou na sala de Mase correndo e parecia muito aflito, estava com seu bloco de notas à mão e começou a virar as folhas e falar ao mesmo tempo. Mase chamou sua atenção na mesma hora.

- Peter contenha-se, o que foi que aconteceu e por que está olhando essas páginas com aflição?

- O senhor Felipe não apareceu como combinado, liguei para o cais e ele não foi trabalhar hoje, acho que saiu da cidade.

- Peter peça que façam um retrato falado de Felipe agora e distribua entre os policiais de todas as delegacias de Londres, diga para fazerem uma busca nas docas e em toda a cidade, quero bloqueio em todas as saídas, ele não pode ter ido muito longe.

- Desculpe senhor Edward pela confusão, o senhor pode ir.

- Obrigado senhor Mase e espero que capture esse homem, boa sorte!

Mase ligou para Cléo na galeria e pediu que se Felipe aparecesse por lá que ela ligasse imediatamente para ele. Peter já havia feito o retrato falado e distribuído entre os policiais, que começaram uma busca por toda a cidade.

Peter entrou novamente correndo na sala de Edde, mas desta vez tinha boas noticias.

- Senhor Mase encontraram Felipe, ele está encurralado em um prédio no centro, está no telhado ameaçando se matar.

- Vamos depressa! Disse Mase.

- Rápido homem, faça esses cavalos correrem.

Chegando ao local, Mase correu em direção ao prédio e subiu as escadas a passos largos, chegou ao telhado quase sem fôlego.

- Não se aproxime senhor Mase, senão eu me jogo daqui.

- Não faça isso Felipe, eu quero te ajudar, tenha calma.

- Eu não vou voltar, eu disse para o senhor, prefiro morrer a voltar para aquele lugar infernal.

- Eu prometo que você não vai voltar, eu lhe dou minha palavra, só me diga se fez tudo sozinho.  

- Siga as pistas em latim senhor Mase. Em seguida se jogou caindo em cima da carruagem de Mase.

Eddie ficou olhando para baixo, enquanto uma multidão se formava em volta do corpo. Foi nesse momento que Eddie parou para pensar sobre o que Felipe disse antes de pular, `siga as pistas em latim`, lembrou-se do bilhete e da frase, o único que poderia ter escrito seria Edward.

Edward é o assassino pensou Mase, Felipe foi só um bode expiatório em busca de dinheiro.

Eddie pensou em uma ideia brilhante para pegar o assassino, armaria um novo jogo de pôquer e ele seria o quarto participante, mas sem ninguém saber.

Entrou em contato com o senhor Wallace e explicou a situação e toda a sua estratégia, combinou uma partida de pôquer em sua mansão para sexta-feira às 19 horas, precisava tirar Edward de casa, para que seus policiais fizessem uma busca por alguma pista, queria algo que ligasse Edward à galeria e por fim revelar que ele é o assassino de Jonatan.

Estava tudo pronto naquele dia, os policiais estavam à paisana esperando que Eduard saísse de casa para fazer a busca.

Mase já estava arrumado e pronto para sair, esperava uma ligação do senhor Wallace confirmando que todos estavam presentes em sua casa.

 

Resolvendo o caso

 

O cenário estava todo armado na casa de Wallace, alguns policiais iriam ficar escondidos na casa esperando pelo sinal de Mase para prender o assassino, Edward já tinha saído de casa com destino a mansão, os policiais entraram em seguida com um mandato de busca e apreensão. Patrick foi o primeiro a chegar ao local, trazia com ele uma garrafa de licor.

- Boa noite senhor Wallace, trouxe um presente para o senhor.

- Hum, muito bem pensado meu rapaz, vamos esperar Edward chegar para abrir a garrafa.

- Mais alguém além de nós três?

- Sim, teremos um convidado surpresa, não posso revelar quem é ainda, mas você verá.

- Estou vendo que vai ser uma noite cheia de mistérios.

- Nem tanto meu caro, só algumas surpresas.

Edward chegou em seguida e parecia um pouco nervoso, não estava com uma boa aparência.

- Boa noite senhores! Disse ele.

- Edward estávamos te esperando para tomar um conhaque antes do jogo.

- Não vamos começar o jogo agora, tem mais um convidado essa noite?

- Sim, temos mais um convidado e já deve estar chegando, vamos relaxar por enquanto e beber.

- Vocês ficaram sabendo de Felipe, ele se jogou de um prédio antes de ser preso por Eddie Mase, caso encerrado ele tinha culpa por isso preferiu a morte a cadeia.

- Mas teve uma confissão antes de ele morrer?

- Não sei detalhes sobre isso, é sigilo policial.

Nesse momento o mordomo anuncia a chegada de Eddie Mase.

- O senhor Mase já esta aqui patrão.

- Senhor Mase? Achei que o senhor não viria nos fazer companhia essa noite.

- Desculpem o atraso, estava com problemas em encontrar uma roupa adequada para a ocasião.

- O senhor está muito elegante hoje senhor Mase, disse Patrick.

- Obrigado, vamos ao jogo cavalheiros?

- Não quer tomar um pouco de conhaque antes? Perguntou Wallace.

- Não senhor, apesar de não estar a trabalho pode surgir algo a qualquer momento e devo estar sempre pronto para tudo.

- Como está o andamento do assassinato de Jonatan, presumo que já esteja encerrado já que Felipe era suspeito e se matou. Disse Edward.

- Não posso falar sobre isso com civis, ainda é sigilo policial até que tudo esteja resolvido.

- Vamos começar então? Disse Wallace.

O jogo seguiu conforme o combinado, ninguém mais mencionou o caso e Edward a cada minuto que passava ficava mais nervoso, roía as unhas e estalava os dedos a todo o momento.

- Você parece um pouco nervoso, senhor Edward, disse Mase.

- Não senhor é só um cacoete, que tenho desde jovem.

- O senhor lembra-se da frase em latim que pedi para traduzir aquele dia na minha sala?

- Sim lembro claro, o senhor descobriu de qual livro era?

- Na verdade não era de um livro e sim de um bilhete.

Patrick olhou com cara de desconfiança para Mase.

- Bilhete? Mas que bilhete é esse?

- Um bilhete encontrado na cena de um crime.

- No assassinato de Jonatan? Perguntou Patrick.

- Não senhor Patrick e mesmo que fosse eu não poderia discutir esse assunto com os cavalheiros.

- Espero ter ajudado traduzindo para o senhor.

-Sim ajudou muito Edward, agradeço.

O mordomo entra novamente e anuncia que alguns policiais estão na casa para ver Eddie Mase.

- Com licença senhores, volto em um minuto.

- Encontramos senhor, é uma carta de Jonatan endereçada a Edward. O senhor vai gostar do que vai ler.

- Está bem, fiquem prontos ao meu sinal e não deixem que ele fuja caso corra para a saída.

- Desculpem por isso senhores, mas um de meus policiais me trouxe algo bem relevante agora. Algo que pode de vez encerrar o assassinato de Jonatan.

- O que seria senhor Mase? Perguntou Wallace.

- É uma carta endereçada ao senhor Edward.

- Para mim? Que tipo de carta é essa e quem mandou? Estava mais nervoso ainda depois de ouvir seu nome.

- É uma carta enviada por Jonatan aos seus cuidados. Eu vou ler para os senhores, disse Mase.

 

A carta

 

Edward meu amigo, não tive a coragem de dizer pessoalmente para você, vou dizer agora e em nome de nossa amizade de anos, preciso desabafar. Sempre fui um bom amigo e um sócio muito compreensivo, mesmo quando você queria se por à frente de nosso negócio, eu sempre cedi às suas vontades. Um dos motivos de eu terminar nossa sociedade foi seu temperamento abusivo e mania de dar ordens, era como se eu fosse seu empregado e não seu sócio. Muitas vezes brigamos por coisas superficiais e sem valor, mas você tinha que alimentar seu ego inflamado.

E mesmo sempre estando por baixo, ainda tinha esperança de que você mudasse, lembro-me da vez que você bebeu e quase me enforcou com meu próprio lenço.

Eddie olhou para Edward com cara de deboche.

Depois desse episódio, decidi ir embora e terminar nossa sociedade, o que me deixou muito triste por vários dias, mas eu superei e quando montei minha própria galeria, pude superar tudo que passei.

Suas frases em latim às vezes me irritavam, mas você fazia mesmo assim só para me provocar, o fato de não aceitar minha opção sexual o levou a outro nível, mas isso eu também superei com o tempo.

Mas o que mais me incomoda agora é o fato de você vir me cobrar algo depois de anos, se você acha que vou vender minha galeria para você está muito enganado, minha vida está aqui e nunca vou me desfazer dela, seja o preço que for. Não adianta você ficar me cercando às escondidas, eu sei que é você que fica nas esquinas me observando, com sua roupa preta e chapéu, não tenho medo de você.

Por fim peço que pare de me perseguir e na sexta-feira no jogo de pôquer será a última vez que nos veremos, não quero mais ter que encontrar com você, caso contrário terei que denunciá-lo a policia.

Viva sua vida e me deixe viver a minha em paz.

 

Jonatan.

 

- O que o senhor tem a dizer sobre essa carta Edward?

- Isso não me diz nada, é passado.

- Passado com data de três dias antes da morte de Jonatan?

- O senhor está me acusando de ter matado Jonatan? O senhor deve estar louco.

- Você tinha motivos para fazê-lo e foi ajudado por Felipe, antes de morrer ele me disse para seguir as pistas do latim, uma língua que somente o senhor pode falar não é Edward?

- Você não tem provas, não pode me acusar de algo sem evidências.

- Tenho a carta e uma testemunha que o viu no dia em que achamos o corpo, tenho suas digitais no lenço que usou para estrangular Jonatan e seu bilhete em latim, você deveria odiar muito Jonatan para matá-lo e deixá-lo nu à beira do Tâmisa.

- Vou esclarecer os fatos para o senhor. Após a partida de pôquer Jonatan foi embora com Felipe direto para sua casa, lá Felipe dopou Jonatan e esperou que você chegasse, mais ou menos meia hora depois, então na hora de agarrar Jonatan ele caiu e bateu seu rosto no chão, por isso o sangue no bilhete em latim. Felipe achou que ele estava morto, mas você

quis ter certeza e com seu próprio lenço o enforcou. Minutos depois enrolaram o corpo em um tapete e em sua carruagem levaram até às margens do Tâmisa, onde lá tiraram sua roupa deixando-o de bruços em forma de coito e em seguida colocou o bilhete em sua boca, você pagou Felipe para ficar de boca fechada, mas ele era um homem que temia a cadeia e quando pressionado não aguentou e se matou, estou correto senhor Edward?

- Ele mereceu o fim que teve, era um imoral perante Deus e sempre foi um péssimo sócio, achando que sua galeria seria melhor que a minha, era um arrogante!

- E isso tudo era motivo para mata-lo senhor Edward?

- Faria de novo se fosse preciso, disse Eduard.

- Mase fez um sinal e os policiais entraram na sala cercando Edward.

- Edward o senhor está preso pelo assassinato de Jonatan Weiss, você será levado para uma cela provisória e julgado em tribunal, que deus tenha piedade de sua alma, podem levá-lo homens.

Mase estava radiante e resolveu acender um charuto para comemorar.

-Vamos brindar cavalheiros, colocamos um assassino atrás das grades, me sirva um conhaque senhor Patrick, agora posso beber.

- Obrigado pala sua colaboração senhor Wallace, foi de extrema importância.

- Sempre às ordens detetive.

- Vocês estavam combinados o tempo todo? Perguntou Patrick.

- Sim, o senhor Wallace era meu cúmplice o tempo todo, montamos essa cilada para Edward, por

que temíamos que ele fugisse da cidade e deu certo, um brinde a bons amigos e cúmplices.

No dia seguinte Eddie Mase foi novamente condecorado e saiu na capa do jornal local, agora era um dos detetives mais famosos de Londres

- e que venha novos casos, pensou ele radiante.

 

= Fim-

 


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