09 julho 2020

40 anos sem o poetinha (*)

Há exatos 40 anos, silenciava-se, em uma casa no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, um dos nomes mais singulares da música e da literatura brasileira. Vinicius de Moraes, que nasceu com o nome de Marcos Vinicius de Melo da Cruz Moraes, morreu de edema pulmonar, aos 66 anos, em 9 de julho de 1980.
Diplomata, escritor, compositor e cantor, o Poetinha foi um dos maiores nomes da cultura popular do País pelo mundo afora
Além de poeta e compositor, foi diplomata no Itamaraty e passou grande parte da vida no exterior, o que lhe aproximou de diversas personalidades artísticas como Orson Welles e outros nomes de Hollywood. No documentário Vinicius (2005), disponível na Netflix e dirigido por Miguel Faria Júnior, amigos revelam em entrevista que, segundo regras estabelecidas pelo Ministérios das Relações Exteriores, ele só poderia cantar, enquanto diplomata, se estivesse vestindo terno e gravata, e que não poderia receber cachê pela apresentação.
Aos 56 anos, foi exonerado do cargo após a publicação do AI-5 durante o regime militar. "Mesmo quando no exercício de missões diplomáticas em outros países, o poeta da paixão nunca esqueceu o Brasil. O amor pelo País, bastante focado no Rio, ganha corpo em toda a obra, entranha-se na cultura por ele deixada e transformada", afirma a ex-professora do Instituto de Letras da Ufrgs, Maria do Carmo Campos.
A genialidade e a intensidade de Vinicius acompanhavam a abrangência de seu trabalho. Intenso, escrevia com gana à vida, à paixão e a todos os sentimentos sofríveis do ser humano. Em seus poemas e sonetos, usava a estrutura tradicional da poesia para falar uma linguagem universal, de fácil compreensão.
Em talvez seu poema mais famoso, o Soneto de fidelidade, Vinicius perpetuou uma das mais célebres frases de amor da literatura brasileira: "Que não seja imortal, posto que é chama; Mas que seja infinito enquanto dure". O poema foi composto para sua primeira esposa, enquanto esperava um navio em Portugal, no ano de 1939.
A pós-doutora em crítica de poesia Mires Bender explica a composição que constrói os versos de maneira tão palpável a quem os lê: "Ele segue a estrutura básica do soneto petrarquiano, o qual apresenta uma sequência de estágios em que os dois primeiros quartetos fazem surgir e crescer uma expectativa e os dois tercetos apresentam uma progressão para o desfecho".
A pesquisadora também relata que Vinicius talvez tenha sido o poeta moderno que mais explorou a forma concisa do soneto: "Seu caráter de sonoridade deve ter chamado a atenção deste poeta tão ligado à música. Vamos encontrar com frequência aquilo que os poetas denominam 'pedras de toque', que são versos de alto valor poético. É interessante observar que os sonetos de Vinicius seguem a composição camoniana, não só nos temas", relata Mires.
Além da própria bossa nova, Vinicius contribuiu intensamente para a visibilidade da cultura brasileira no exterior. Um de deus grandes trabalhos foi a peça Orfeu da Conceição, encenada em 1965. A história é uma adaptação do mito grego de Orfeu e Eurídice, uma odisseia amorosa com um final trágico.
Nesta versão escrita por Vinicius, o romance acontece em uma favela no Rio de Janeiro durante o Carnaval, e contou com um elenco inteiramente formado por pessoas negras. Foi a primeira vez que atores pretos pisaram no palco do Teatro Municipal do Rio. "Vinicius tirou a poesia de círculos herméticos e levou ao alcance do povo. Mas, principalmente, o poeta engajou pessoas, dentro e fora do Brasil, à sua disposição em romper com preconceitos de raça e de classe", declara Mires.
Levando Eurídice e Orfeu cariocas para voos internacionais, a peça também virou filme, com produção de Vinicius e dirigido pelo francês Marcel Camus. O título Orfeu Negro (1959) ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Com cenário de Oscar Niemeyer e música de Antonio Carlos Jobim, foi um dos primeiros de muitos trabalhos conjuntos de Vinicius e Tom, dando início a uma amizade que se perpetuaria para fronteiras além do Brasil com o surgimento da bossa nova e, mais tarde, em 1962, com a clássica Garota de Ipanema.
(*) matéria da jornalista Roberta Requia, publicada no Jornal do Comércio, link com a reportagem completa abaixo

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