10 julho 2015

Nilza Murakawa, a poetisa, a colunista Poemas com livro novinho nas mãos: Pássaros na Garganta!




Entrevista com uma das mais promissoras poetisas da atualidade: Nilza Murakawa.
Ela nasceu em São Paulo, em 1962. É formada em Letras pela FMU, professora de Língua Portuguesa e Inglesa, artista plástica, poetisa e amante da fotografia.
Faz parte de grupos poéticos dos mais diversos e é colunista do Portal Poemas à Flor da Pele. Seus versos são ouvidos em rádios e lidos em muitas antologias brasileiras, revistas e jornais.
Em 2013, recebeu dois prêmios com os poemas “ACINTE” e “AO TEU GOSTO” no Concurso Celebração 100 anos do “Poetinha”, homenagem a Vinícius de Moraes, promovido também pelo grupo Poemas à Flor da Pele. 

(POEMAS) 1 - Quando descobriu sua veia poética?

Nilza Murakawa: Desde muito cedo, eu já gostava de escrever.  Bilhetinhos de amor bem elaborados (risos), longos textos na escola, poeminhas em cartões de aniversários, etc.
Sempre gostei do cheiro de caderno novo, pronto para ser usado e o folhear incansável de páginas de livros, sempre muito atenta e curiosa. Conheci grandes obras através, principalmente, de meus professores e tomei gosto pelas literaturas. Lembro-me de que, em uma das aulas de Redação, a professora nos pediu para fazermos um texto descrevendo um objeto, porém, sem mencionarmos seu nome. Escrevi-o em forma de poema e o mesmo (para minha surpresa) foi selecionado para ser lido perante a classe. Sempre muito incentivada, prossegui também nesta arte.

(POEMAS) 2 – O que é para você o ato de criar e em que momentos a inspiração chega? O que, na verdade, inspira-a?

Nilza Murakawa:

Fazer poesia também é um dos recursos de busca interior, resgate de coisas esquecidas, adormecidas ou que, na verdade, nunca existiram até o instante da criação.  Não há momentos certos, com hora e lugar marcados. A poesia nos pega de jeito, muitas vezes, em situações inusitadas e é por isso que, onde quer que eu esteja, carrego sempre papel e caneta. O que me inspira? A vida! A vida com todos seus detalhes visíveis ou não, belos ou não tão belos assim. O cair da chuva, a leveza de uma folha morta, lágrimas de alegria e pranto, raios de sol tingindo cabelos, os silêncios, ... 

(POEMAS) 3 - Quais, entre suas obras, os três poemas que escreveu e que a deixam realizada por ter escrito?

Nilza Murakawa:

AO TEU GOSTO



Só para deixar-te louco
Fui as outras, fui aquelas
Todas elas

Fui teu bem, teu mal-me-quer
Maria-sem-vergonha, camélia
Dama da tua noite
Tua moça casta, quase Amélia

Fui Bahia de todas tuas santas
Pimenta do teu gosto dendê                             
Fui teu prato quente
E teu crème brûlée

De salto alto, vestido colado
Fui serpente rasteira do teu cabaré
Fui balanço do teu samba                                  
Batuque do teu candomblé

Égua de tuas milhas e quarto
Cria-dos-mudos versos teus
Teu tapete veludo de quatro
Fui segredo de tuas gavetas

Só para deixar-te louco
Em tua cena, mais uma vez, entrei
Feito borboleta madura
Voei sobre tuas partituras                             
Por entre as tuas pernas, pousei...

Dancei em teu trote de cavalo doido
Despi-me do trêmulo cetim
Provei do teu gosto particular                            
Senti a loucura do teu poema rabiscado em mim
E levado com teu morno mar...

Tantas vezes me esculpiste Vênus
Tal qual tua caneta, deitaste-me sobre a mesa
Molhando-me as partes acesas
Com tuas gotas musicais
Como chuva mansa, de tantos carnavais

Ainda ficou o rastro do teu uísque e fumaça
Em minhas cortinas e plumas
Ainda ficou o teu beijo
Em minhas espumas...

Pela casa, ainda ficou aquele teu incenso de rosa oriental
Nos meus cabelos, ainda um pouco do teu sal
Tua sombra em minhas paredes íntimas
Em minhas areias brancas, as tuas pegadas...

Ah, que saudade da verde luz dos olhos teus
Pela lira de Orfeu escorrendo
E pousando nos meus...


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CORTINA I



Às vezes, dengosa
Deixa-se tocar pelo morno vento
Muito curiosa
Com seu bailado lento
Espia lá e cá
Ora mundo azul, ora paredes grenás
Ora pessoas estranhas
Ora peles, mãos e manhas

Em moles movimentos
Alisa o móvel delicadamente
Derruba, distraidamente
Do vaso, algumas pétalas
Sobre a página aberta
De um poema inacabado

Sensível e paciente
Resguarda da luz fielmente
Olhos insistentes
Que ainda não querem acordar
Estremece-se ao som
Da fúria do bater de portas
Fecha-se em suas tramas
E não revela segredo algum

Outras vezes, tão preguiçosa
Sequer sacode o inseto
Que, furtivamente
Passeia dentro
De suas pregas rosas

Gatos de unhas finas
Balançam-se nesta cortina
E borboletas com asas de cristal
Em fila vertical
Voam sempre no mesmo lugar

De sentinela
Fica na janela
Como escudo
Para possíveis estilhaços

Cautelosa
Permite ao sol, ao raiar
Apenas seus pequenos traços
Sobre aquele poema
Ainda por terminar

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MEU DESERTO, MINHA BUSCA


Esvazio-me das certezas
Caminho pelo meu deserto
E meus pés estranham a areia grossa

Viro-me do avesso
Vasculho-me

Boca seca
Sonhos pêndulos
Em um coração ainda quente

Atravesso sozinho
Este árido manto
De grãos e pensamentos soltos
E minhas verdades escorrem...

Bebo minhas lágrimas
Como se fossem anestésico

Não. Ainda não estou pronto
Caminho mais um pouco...

Meus passos em brasa
Procuram respostas
De minhas vozes silenciosas

Talvez esta viagem
Não tenha destino certo
Talvez eu tenha que me desfazer
De mais um pouco de bagagem

Seguirei a partir daqui
Farei pequenas paradas 
Refrescar-me-ei pelo meio do caminho
E, depois, provarei sem pressa
O doce sal de outra língua.


(POEMAS) 4 – Quais os poetas e obras que leu e que são sua referência?

Nilza Murakawa: Na verdade, minha poesia não segue um modelo, um estilo definido pois gosto desta liberdade a que me propus para escrever. Entre tantos que li, destacarei três dos meus favoritos:

Carlos Drummond de Andrade: Antologia Poética
Fernando Pessoa: Livro do Desassossego (semi-heterônimo Bernardo Soares), poemas: Alberto Caeiro/Álvaro de Campos
Mário QuintanaEsconderijos do Tempo – Poesia Completa

(POEMAS) 5 – Escolha um poema que admira destes autores e coloque aqui para que possamos apreciar.

Nilza Murakawa:

CASA ARRUMADA (Carlos Drummond de Andrade)

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

(POEMAS) 6– O que você acha dessa criação desenfreada no mundo virtual?

Nilza Murakawa:
Expor trabalhos na internet sempre é “uma faca de dois gumes”.  Divulgação e notoriedade; em contrapartida, desrespeito aos direitos autorais e posse ilegal.
Usar as facilidades tecnológicas para a criação, corre-se, às vezes, também o risco de se esquecer da essência, da alma.

(POEMAS) 7 – O que você diria para um poeta que está iniciando sua vida literária?

Nilza Murakawa: Leia, poeta! Leia muito! Leia tudo! E releia muitas vezes o que escreve. Bons conhecimentos de gramática e de vocabulário são peças importantes. Não se prenda a teorias. Conheça-as.  Não valorize mais a estética, as rimas do que a mensagem. Seja atento, curioso, observador pois a vida, todos os dias, oferece-nos inúmeras inspirações.

(POEMAS) 8 – Fale de seu lançamento “PÁSSAROS NA GARGANTA”, que reúne versos dos mais bonitos, e como surgiu a ideia de torná-lo realidade?


Nilza Murakawa:
(Obrigada, Poemas À Flor da Pele pelo elogio! )

Bem... (pausa e risos) Tive uma filha, plantei diversas árvores e, então, já estava na hora de reunir meus quase 150 poemas, fazer uma seleção cuidadosa e coloca-la em um livro.
“PÁSSAROS NA GARGANTA” é um presente para mim e para tantos amigos que têm me incentivado ao longo destes últimos anos. Enfim, mais um sonho sonhado (desculpe-me pelo pleonasmo), planejado e executado.

E, aqui, não posso deixar de agradecer à Soninha Porto, Editora Somar, Gilberto, Gráfica Pallotti, Dado Carvalho e Rodrigo Moura, os quais trabalharam brilhantemente para a realização deste meu sonho. Muito obrigada a todos! 

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