02 dezembro 2013

Casa amarela, janelas vermelhas

Foto de Thiago Piccoli

Sempre que lembro a infância me deparo com lugares e histórias quase sobrenaturais. Encontro sonhos e desejos que nem importam; perderam-se no tempo e, sem motivos provocam risos incontidos no pensamento. Deram lugar a outros e a outros e a outros insondáveis caminhos no coração de quem procura a vida com paixão. Fazem parte de um destino que nos espreita sem perdas, por vezes com alegria ou tristeza, quase sempre com sabedoria; dolorosa, quase sempre. E foi assim, num desses dias de pandorga e bolita que percebi que nada é para sempre e sempre é expressão mais que poética, é infinito; trilho de trem.
Sem pai nem norte, observava incrédulo o velho chalé amarelo com janelas vermelhas ser arrancado de suas fundações e, assim, colocado sobre um grande triângulo de ferro com rodas esquisitas engatado a um antigo caminhão Ford que, com alguma dificuldade, o retirou do terreno que ocupara durante longos trinta anos. Era como uma árvore extirpada pelas raízes, ali estavam minhas vivências, planos, amores, desamores, enfim; natais e mais natais.
Não lembro se ria ou chorava! Era estranho o sentimento de ver a casa que partia. Com ela iam-se meus fantasmas, medos, limites e sonhos. Em tempo se ergueria uma nova casa com tijolos e peças maiores, janelas de guilhotina e persianas brancas de matéria plástica. O chão surrado de vermelho “xadrez” da cozinha, trocado por lajotas cor de vinho. Hexagonais e frias, muito frias. No banheiro azulejos cor-de-rosa como minha mãe sonhara. Não mais cortinas nas janelas nem ligação entre os quartos, tampouco a farra de encerar o velho assoalho escorregando em panos de lã. Nem trilhos de linóleo nem tapete de trapos.
Com a casa foram-se meus amigos invisíveis; os gnomos e seus estalos, as fadas do bom sono e as bruxas com suas risadas. Universo sonoro e colorido de seres poderosos que, de certa forma, eram aparentados e parecidos com seu visionário.

Tinha 13 anos e gastava horas pensando em branco. Evitava espelhos e secretamente traçava planos mirabolantes. Queria voar e não tinha asas, queria rir e perdia a graça; tudo muito, tudo pouco. E ainda assim, a casa amarela de janelas vermelhas se ia pela rua afora.

Marco Araujo

2 comentários:

soninha porto disse...

Marco sou tua fã de carteirinha amigo! Lindíssimo texto! Intenso, vívido! Bárbaro!

Reggina Moon disse...

Maravilha Marco!
Identifiquei-me muito com seu texto!

Abraços!

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