30 novembro 2013

VIVER E MORRER
Marcia Mendes

 “Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra. A lembrança de uma sombra. Em nenhum coração, em nenhum pensamento. Em nenhuma epiderme. Morrer tão completamente. Que um dia ao lerem o teu nome num papel perguntem: Quem foi? Morrer mais completamente ainda. Sem deixar sequer esse nome”. ( Manoel Bandeira, Morte Absoluta)

Todos os dias, Maria morria um pouco quando acordava.
Como eu e você, morria e despertava.  Um dia era o medo, num outro a solidão; ora a rotina, ora a distração.  Sempre algo a incomodar.
O tédio, quase a matou sem dó, contudo, despertou e amou João. Quase morreu de amor. Sobreviveu para cuidar da cria.  Aí complicou tudo e quase foi-se de tristeza, de mágoas, de desesperanças, ou de tanto trabalhar.
No caminho encontrou velhos amigos que quase morreram de frio, fome, sede e doença. Maria voltou depressa pra vida e antes que o quase a pegasse, passou a cuidar melhor de si.   Mudou de bairro, arrumou os cabelos e quando achou fios brancos, voltou ao velho hábito de quase morrer.  Pintou os cabelos.
Um dia soube que existe gente má. No mundo tem dessas coisas. A raiva, o ódio, a desilusão e a inveja, quase a mataram. Coitada da Maria! Coração se ressentiu, fígado reclamou e Maria, como de hábito, foi fazer yoga pra não morrer.  Na meditação aprendeu que de soberba e arrogância também se morre. Nunca descobriu que o tão pouco usado perdão faz milagres.
O tempo passou sem mistificação, ora com lerdeza, ora com presteza, parado não ficou. E Maria sem justificação, morreu.  Morreu, sem quase.  Foi-se definitivamente, tão completamente que ninguém mais a viu ou ouviu. Viver não era mais sua tarefa. Abriu a porta e foi pro lado de lá, sem elegância. Des-educadamente, sua alma não se despediu, apagou a luz.  Saiu, bateu a porta na cara da vida. Não houve tempo para remorsos. Nem sentimentos ou arrependimentos. Foi-se sem se despedir.  Morre-se  assim, bestamente, para sempre.  Silenciosamente, de silêncio.
Vida e morte são rentes, prementes, urgentes.
Enlaçam-se durante a vida, morte e vida, até a morte.
Morre-se completamente.

TEMPO
Marcia Mendes

Tempo,
Deus caprichoso
Que desata ventos,
Constrói chuvas torrenciais,
Faz cair folhas outonais.
Explode em flores os jardins.

Menino insone
Que ri de mim,
O inverno foi frio por demais!
Mexa o relógio,
Tal como outrora
E aquece o verão pra mim?
(Publicado jornal PUC - jun 2002)
***

4 comentários:

soninha porto disse...

Emocionante, um sacode-a-poeira pra levantar-se! Meus ventos, tantos, quase me carregam pro abismo, mas levanto, sacudo a poeira e sigo, sensação de quase morte, me carrega pra vida.
Um abraço linda escritora!

Kedma O'liver disse...


VEM COMIGO

Pela porta entreaberta
ouvi o vento assoprar
palavras destorcidas...
nada por falar.

Sentimentos partidos
sem um abraço qualquer.
Metades divididas
sozinhos...homem/mulher.

Escancarei a porta:
Felicidade pode entrar!
Que sejas eternamente
minha parceira... Vem bailar!

Trancarei todas as portas
para a tristeza não vê;
e no valsar da vida
ficaremos eu e você.

Kedma O’liver

soninha porto disse...

Bacana Kedma!

Marco Araujo disse...

Lindo texto!

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