21 novembro 2013

Violeta

Violeta comprava flores de todos os tipos e cores e distribuía por toda a casa. Não havia datas ou comemorações, todo dia era dia e sempre era motivo para novos ramalhetes e mudas. No fim das tardes, quando regressava do trabalho ou aos sábados com as compras da feira. Poucas compras, muitas flores.

Vestia-se com simplicidade e aparentava quarenta e poucos anos; cabelos e olhos pretos, corpo esguio, olhar distante. Cumprimentava a todos com íntegra economia, não dava margem a conversas e, com isso, despertava curiosidade e até algum comentário envolvendo sua conduta. Diziam ser amante de alguém importante ou vítima de alguma desilusão amorosa. O estranho é que ninguém lembrava quando se mudara ou quem a antecedera naquela casa. Com exceção da feira, não se valia de nenhum serviço do bairro e nem caderno tinha no armazém da esquina.

O pequeno jardim, repleto de gerânios, roseiras e espadas-de-são-jorge, emoldurava o caminho que conduzia do portão até a porta e, mesmo até, que comentassem sobre Violeta, todos reconheciam e admiravam seu capricho. O jardim era mágico e ao mesmo tempo real, pois perfumava e maravilhava a quem por ali cruzasse. E houve, nesse tempo, quem afirmasse que seres pequenos e encantados aplicavam-se solícitos na poda e no cultivo de suas viçosas roseiras. Sumiam-se à chegada do sol.

Cantava para açucena, contava histórias para as begônias, ria com as sempre-vivas, chorava com as samambaias. Mantinha seu mundo livre de qualquer perigo. Parecia ter consciência absoluta dos objetivos que a trouxeram a vida. Destino que cumpriu à risca e com méritos. Não ia à missa, cultuava as flores e, sem nenhuma dúvida, era este seu religare.

Violeta deixou o mundo prematuramente. Chovia muito e seu pequeno corpo foi conduzido por dois homens até um carro muito branco. Com ela, foram-se os segredos que envolviam sua existência entre nós e, certamente, ficariam muitas perguntas. Questões que hoje – sinceramente – não tem importância alguma. Prefiro a lembrança de seu amor pelas flores ou ainda a beleza sincera de seu jardim. Imagino a música de seu silêncio e, confesso uma ponta de inveja por sua habilidade e resignação. Nunca vi alguém tão perseverante.

Violeta morreu num começo de inverno. Foi-se num carro branco que sumiu em meio ao escarcéu.

Marco Araujo

4 comentários:

Reggina Moon disse...

Marco, belíssimo texto...envolvente!E assim muitas pessoas se vão, envoltas em seu mundo, mistérios e deixando um rastro de admiração.Abraços!!

LuciAne disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LuciAne disse...

Eu compro cigarros e volto. Às vezes me permito parar e observar jardins alheios. Violeta aduba mundos paralelos, eu já fiz isso um dia.Belo texto, parabéns.

soninha porto disse...

Caraca, que rico texto! Marcos estás maduro para romance até se quiser, amei!

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