16 novembro 2013

Solidão




Viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre - Foto de M. Araujo

         A cidade era um lapso de tempo, ruas e esquinas encerravam solidão. Sem estrelas, a iluminação velava o fim do dia. O vento cantava um réquiem que, de quando em quando, perdia-se no silêncio. Da janela, a noite era um corpo sem alma, um continente perdido, uma lembrança longínqua. Nem cães, nem gatos, nem corujas, o tudo era o nada.

Sobreposta à sensação de frio, meu coração doía; pulsava reminiscências, batia velhos temores, sofria o futuro incerto e o tempo que passava era dia de noite eterna. Nem sons, nem cores, nem sonhos, apenas caminho.

Cama, armário, mesa, televisão, tapete; o quarto ainda era o mesmo e, só agora, me detinha em seu estado. Paredes riscadas e sem pintura envolviam a cena que refletia minhas mágoas, ódio e tudo que poderia dizer-se imperfeito. Fechando os olhos evitei o espelho e minhas próprias dúvidas – era juiz e ao mesmo tempo réu. Convivia com fraquezas que sempre neguei com atitudes sem pé nem cabeça que, embora vencidas, emergiam disformes, como fantasmas que alimentei ao longo da vida. O invisível surgia implacável e com dimensões que, sinceramente, não imaginara ter construído. Nem meio, nem fim, nem começo, apenas a verdade.

Um raio riscou o céu e, redentor, trouxe a chuva que lavou as ruas e também minh’alma. As lágrimas vieram em turbilhão e o pranto serenou a dor. Nesse momento, era estranho imaginar o motivo que me conduzira até ali. A desilusão era gota em mar aberto, quase nada perante a realidade desvelada, um nó em meio ao novelo que tecia um destino de inúmeras tramas. Nem luta, nem lida, nem vida, somente descoberta.

Lembro, nesse fim de madrugada, de rezar e rezar e rezar. E, pela primeira vez, rezava pelo o que era, não o que pensara ter sido. Em meio ao lusco-fusco dos primeiros sinais da manhã, sucumbi - exausto - ao sono e a solidão.

3 comentários:

LuciAne disse...

...E quando rezamos, rezamos e rezamos pelo que é e não pelo que pensávamos ter sido. O poeta retrata a dor e a solidão que machuca mais que um soco na boca da alma.Sentimentos e sensações atemporais. Mas culpar a quem? Somos responsáveis por nossas escolhas. Os amores deixam essas marcas nas paredes, no coração e pode passar meses, anos, vidas... Parabéns por tanta fidelidade ao teu ofício de poeta!
Abraços

Reggina Moon disse...

Belíssimo e reflexivo texto!Parabéns!

soninha porto disse...

Caraca! meu amigo Marco Araujo vc tá demais! Lindo, lindo! Fã de carterinha!

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