18 novembro 2013

CONSCIÊNCIA HUMANA

CONSCIÊNCIA HUMANA NO MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Marcia Mendes

“Não é aos homens que me dirijo, é a ti, Deus de todos os seres, de todos os homens e de todos os tempos (...) Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos fracos corpos, entre nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas nossas opiniões insensatas (...) que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados homens não sejam motivos de perseguição.”(Voltaire, Tratado Sobre Tolerância, 1773, in Historie.)

Novembro, mês da consciência negra -  não apenas a figura de Zumbi deve ser lembrada,  mas de todos os africanos que, num ato perverso, foram tirados de suas terras, casas e famílias e trazidos em condições sub-humanas para as terras brasileiras. Lembrados também devem ser todos os afro-descendentes, nascidos aqui, cidadãos brasileiros que viviam como escravos. Lembrados, sim, seja como resgate identitário ou como revisão de uma história equivocada e mal contada, baseada no eurocentrismo, sob a visada masculina.

Sabemos hoje que estes pouco mais de quinze milhões de homens e mulheres que  foram retirados da África à força, pertencem a várias etnias.  Não havia homogeneidade entre estes povos, ao contrário, eram marcados pela diversidade de idiomas, hábitos, costumes, crenças, e religiões.

O cativeiro traz consigo um des-enraizamento radical: pela brutalidade do tráfego, pelas violências que sofriam, pelo sentimento de angústia e impotência diante dos fatos. Condenados à dispersão e à mistura, mercadejados e vendidos como semoventes, sem nenhuma expectativa de retorno.
Situação-limite, de cara com a morte, individual e coletiva, trágica e natural.
Nossos ancestrais viviam um desespero mudo.

À partir dos mitos, do respeito aos mais velhos, da união em famílias - propiciando solidariedade e tolerância, a cultura afro-brasileira foi transmitida de forma oral, até aqui,  conferindo aos seus descendentes identidade e pertencimento, elementos básicos para a construção do sujeito.

Ora, se a Cultura é patrimônio simbólico compartilhado e herdado, apropriando-se da cultura, apreender-lhe o máximo e tentar cristalizá-la é garantia de uma sociedade psiquicamente mais saudável. Negar-lhe é perder-se de si.

A sociedade brasileira é permeada pela plural contribuição desses homens e mulheres, que, além de marcarem nossos corpos, enriqueceram sobremaneira nossos hábitos e costumes, desaguando na construção de uma das mais belas e ricas culturas do mundo.

A genética moderna mostra que o antigo conceito racial não faz mais sentido. No Brasil somos todos mesclados.  Com isso, o racismo deixa de ter lógica e comporta-se campo do não-saber.

O tempo, o verdadeiro alquimista transformador, passou, e hoje, se temos esse caldo cultural que encanta a todos os povos que aqui aportam, devemos grande parte disso aos nossos ancestrais cujos traços permeiam culinária, música, dança, linguagem, vestuário, crenças, medicina, religiões e festas populares.

Somos todos humanos, a raça é uma só, as diferenças nos enriquecem; e o passado obscuro da escravidão nos envergonha.
Marcia Mendes - psicóloga, escritora e poeta.

2 comentários:

soninha porto disse...

Dói em saber, de ler, de ver o que sofreram nossos negros, muito bom o seu texto amada Marcia Mendes, muito apropriado e muito rico, uma peça literária que dá gosto de ler. Um abraço e bem-vinda!

Academia de Letras de Itabuna disse...

Embora ainda haja necessidade de desmistificarmos muitas "histórias" da história oficial, parabenizo nossa amada Márcia Mendes que com muita propriedade discorre sobre a data comemorativa (que até no nome revela preconceito: DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. E consciência tem cor?) CONSCIÊNCIA HUMANA, SIM! Márcia está certíssima! Parabéns mais uma vez, querida!

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