26 outubro 2013

Carlos Correia Santos entrevista Tchello d'Barros



Os prismas de Tchello d’Barros: um escritor de imagens 


imagem T.d'B.


Tchello d'Barros (Brunópolis SC, 1967) é escritor com 5 obras publicadas e textos em mais de 40 coletâneas e antologias. Artista visual com participação em cerca de 80 exposições, entre individuais e coletivas. Residiu em 12 cidades, percorreu 20 países em constantes pesquisas na área cultural. Circula entre Blumenau, Maceió e Belém do Pará, dedicando-se à produção audiovisual e ministrando oficinas literárias.



A entrevista:

01-  Vou começar te fazendo uma pergunta que tenho disparado pelas mídias sociais. Uma provocação mesmo. Nestes tempos de tanto caos, onde foi parar a Poesia? Onde se deposita com mais força a tua Poesia, Tchello?

T.d’B.: Nesse caos de tantos tempos penso que a poesia não pára, não foi parar em lugar algum, pelo contrário, nunca vi a poesia, sobretudo a escrita, infiltrando-se em tantos espaços diferentes, alternativos, inusitados. Em parte, essa era digital que estamos vivendo é responsável por isso: nunca foi tão fácil escrever e publicar, principalmente na Internet (mas escrever com qualidade, poemas imersos de poesia, já é outro papo...). Acredito que a sociedade contemporânea está em crise, uma crise de valores e valore$ sem precedentes. Viver nesses tempos de hiperinformação é diferente: multiplicaram-se os caminhos, pluralizaram-se os sentidos da vida, expandiram-se as visões de mundo. A poesia em si, as vivências poéticas, não sei se trazem as respostas, se mudam a vida, o mundo, o homem, mas permitem um caminhar, um seguir adiante mais sintonizado com nossas verdades interiores, por mais individuais que sejam. Em meu caso, por mais que eu viva atulhando a Internet (desde que ela existe) com minha produção cultural, prefiro pensar que minha poesia sempre estará onde eu estiver, pois nunca deixarei de publicar meus livros impressos e participar de saraus onde a palavra poética seja falada, a poesia seja oralizada, preferencialmente, pela própria boca dos poetas, como os antigos faziam. O melhor lugar de minha poesia é o lugar do abraço.

02-  Como manter a chama e a lâmina da sensibilidade em meio à velocidade da vida contemporânea?

T.d’B.: Mesmo que eu soubesse, acho que não contaria, estaria cometendo o despautério de sugerir como alguém deve proceder, como viver, etc. Mas a reflexão não impede de compartilhar algumas inquietações: nossa apressada e sobre(a)ssaltada vida contemporânea - que prefiro chamar de extemporânea, já que a contemporaneidade é uma bússola com N direções e nenhuma unanimidade – permite pouco ou nenhum espaço para as experiências que primam pela sensibilidade, pelo sublime, pela contemplação, sobretudo na arte. Mais que nunca, continuo sentindo que arte é atitude, tanto por parte de quem produz, quanto por quem consome. Mas creio que a chama estará acesa enquanto as pessoas continuarem lendo boa literatura, assinando seu nome nos livros-de-visita das exposições, aplaudindo uma boa peça teatral, um show e assim por diante. Se a sociedade consumista e o sistema capitalista (onde estamos inseridos até o pescoço) permitir que a arte se acabe, que os artistas parem de produzir, então acaba a vida contemporânea, acaba a civilização. 

03-  Tu fazes um trânsito muito interessante entre a visualidade e a grafia. Fala um pouco sobre isso.

T.d’B.: Entre esses universos da palavra e da imagem, o mais interessante creio que seja o trânsito mesmo, o transitar entre uma e outra linguagem, já que tudo é sintaxe, esse ir e vir entre a semiótica da criação e a possível comunicação com quem tem contato com meus poemas, contos, crônicas, dramaturgias, roteiros, desenhos, pinturas, gravuras, instalações, intervenções, fotografias e produções audiovisuais. Considero que a poética de meu trabalho seja uma só, apesar das diversas facetas e linguagens que servem de meio para as mensagens, de veículos para as propostas estéticas que se fazem visíveis mediante essas escolhas. Desnecessário contar aqui que cada uma dessas técnicas e linguagens consumiu – e continua consumindo - muito tempo em aprendizado, cursos, leituras, exercícios, formação técnica e conceitual, dedicação mesmo, já que esse papo de talento nato comigo nunca funcionou direito. As repercussões que obtive em mais de 300 ações culturais Brasil afora nessas já duas décadas de atuação, são resultado disso: entrega, disciplina e um amor pelo que se faz que transcende qualquer explicação racional. Talvez esse trânsito entre a grafia e a visualidade sejam dois igarapés diferentes, mas com certeza, afluem para o mesmo rio... sigo remando apenas.

04-  Que Poética uma imagem precisa ter para conquistar o teu olhar?

T.d’B.: As obras que me conquistam têm os mesmos atributos das pessoas que me fascinam, como verdade e sinceridade. Penso que aí está a autenticidade, a originalidade de um autor que tem algo a dizer. Interessa-me perceber a intenção do criador, por detrás da obra, parece-me que aí pode haver a cumplicidade do autor/expectador e o encontro com o que há de mais genuíno em uma alma criativa. E se houver um bom casamento entre conceito e técnica, então, melhor ainda. Pouco me impressionam as vanguardices de ocasião, muitas experimentações esdrúxulas do bizarro circo em que a arte contemporânea se transformou, os conceitos vazios de quem usa a arte como terapia ou para inflar o próprio ego ou o uso da tecnologia apenas pela tara das inovações. Mudam meu estado de espírito o surrealismo de Hieronymus Bosch, as pinturas geométricas de Wasarely, as instalações de Cildo Meireles, os desenhos de Moebius, a fotografia de Diane Arbus, as xilogravuras de Samico e tantos outros artistas populares. Assim como tentar definir o que é o amor, ainda mais plurais e infinitas são as definições de arte. Compartilho com os que consideram que arte não tem que ter função, mas causar uma emoção estética. Conquista-me quem me emociona, simples assim.

05-  Como tu lês o olhar do público sobre a tua obra?

T.d’B.: Hum, talvez coisas íntimas assim a gente nem devesse estar revelando... Mas não me custa confessar que recebo a opinião do público sempre com muito respeito, no sentido mais essencial dessa palavra. E, agora nesses tempos de mídias sociais, com algum carinho também, por conta das interatividades possíveis. Vivo convicto de que a opinião do expectador/leitor/consumidor sobre uma obra é sempre mais importante que a opinião do próprio artista, a qual muitas vezes é pura vaidade. No meu caso são vários os olhares que respeito: existe a percepção do público mesmo, os comentários positivos ou negativos que me fazem crescer, me desafiam, fazem expandir minha produção e aprofundar a qualidade das coisas que faço. Depois, existe o olhar da mídia, de jornalistas culturais que influenciam a opinião das pessoas que lêem meus textos, que vão às minhas exposições. Por outro lado, existem os olhares que são a opinião do sistema da arte (opiniões escritas, sempre), que são as críticas das pessoas do meio artístico que tem alguma relação com meu trabalho – editores, curadores, críticos de arte, galeristas, professores universitários, escritores, promotores culturais, gestores de instituições artísticas e outros formadores de opinião. Nem sempre concordo com tudo que escrevem, mas os cerca de cinquenta textos críticos a respeito de minha obra, amealhados nestes vinte anos de atuação, podem ser um caminho para lançar um pouco mais de luz sobre essa trajetória.

06-  Há Arte em todo lugar, não importa qual?

T.d’B.: Esse pode ser um bom tema para discussão, tanto na esfera acadêmica quanto nos mais desbragados papos de boteco. Já que não possuo a resposta, permito-me ao menos tergiversar com uma provavelmente equivocada opinião: a Arte (aquela com A maiúsculo) está em poucos lugares, em âmbitos realmente seletos e chega para quem a procura de verdade. O que se percebe como uma proliferação da arte talvez seja outra coisa, um processo onde a arte vem sendo cada vez mais apropriada, adequada, adaptada para diversos segmentos como a moda, a decoração, a publicidade, o design industrial e qualquer área em que os executivos de marketing possam valer-se da criatividade dos artistas para embelezar e valorizar os produtos e serviços que estimulam o consumo numa sociedade que muito raramente entra num museu para ver uma exposição ou em um lançamento literário para comprar um livro de poesia, só pra exemplificar. Além de tudo, não é nenhuma novidade que existe também muita picaretagem, alicerçada pela falta de crítica, de bom-gosto do populacho e de uma burguesia desinformada e alienada, apesar do poder aquisitivo. Ainda assim, sempre é bom estar atento e prestigiar a cena cultural local e surpreender-se com os novos talentos que surgem aqui e ali para renovação do quadro cultural.

07- Fala um pouco sobre as tuas relações com o Pará, com a Amazônia. De que forma a região Norte impacta teu fazer artístico?

T.d’B.: Essa relação amazônica/amazônida começou lá pelos idos de 1999, primeira vez que estive no Pará e me empapucei de açaí, tacacá, maniçoba, cupuaçu, pirarucu... Mas principalmente me embebedei da cultura da Amazônia, com sua rica diversidade, seus costumes, história e estórias, a pluralidade étnica e o jeito de viver. Em 2001 fiz uma viagem de cerca de uma semana em navio, de Manaus até Belém, pelo rio Amazonas, onde pude conhecer um pouco mais essa região fascinante e de tantos contrastes socioeconômicos. Mas foi só em 2010, após viver por alguns anos no Nordeste, que decidi conhecer melhor a Amazônia e assim foi inevitável escolher a bela Belém como meu QG no Norte do Brasil. Quanto à produção artística, impossível não se deixar impregnar pelo contexto, pela realidade circundante, pelo caldo cultural em que se está imerso, por esse entorno onde nunca se termina de descobrir as realidades superpostas e a influência geográfica e geopolítica. Então, além de temas locais que acabam aparecendo num e noutro poema ou esquete teatral, a realidade que me circunda tem sido também assunto de minha produção em fotografia documental e no audiovisual. Por vezes, a arte é um pouco isso mesmo, um reflexo da realidade em que se vive.

08- Que artistas te motivam e inspiram o teu foco?

T.d’B.: Por mais que a gente tenha a pretensão de desenvolver uma linguagem própria, um trabalho original com identidade, uma voz autoral, é meio que impossível não nos contaminarmos positivamente de alguma influência ou confluência criativa. De minha parte prefiro fazer de uma forma consciente homenagens declaradas para grandes nomes que nos precederam e abriram caminhos na história da arte, caso de Andy Warhol, com sua Pop Art; Henry Cartier-Bresson, com sua Fotografia-de-Rua; Joan Brossa, com sua Poesia Visual; Leandro Gomes de Barros, com seus cordéis inaugurais; John Cage e sua música minimalista; a literatura inventiva de Ezra Pound, James Joyce e dos concretistas brasileiros; o cinema da Nouvelle Vague, o Lume e seu teatro experimental, e assim a lista vai longe. Essa opção pela multirreferencialidade talvez seja um pouco uma característica desse nosso tempo, onde as fontes são multiplicadas e o próprio tempo se dilui nos eternos embates entre memória X história. Agora, no momento, quase não tenho nenhuma preocupação com influências de linguagem ou estilo. Meu interesse na história da arte tem sido muito mais na atitude que grandes artistas tiveram diante da vida, diante de tudo, e como influenciaram os processos de evolução da própria arte. 

09- Que presente queres dar para a alma de quem recebe o teu trabalho?

T.d’B.: Sou um cidadão que consome/aprecia a arte numa dimensão muito maior que a minha limitada produção. Como exemplo: já li uns dois mil livros, mas publiquei apenas meia dúzia, apesar de ter textos em cerca de cinquenta antologias e coletâneas. Isso quer dizer que quando a gente lê, ouve ou vê um conteúdo artístico de alta voltagem, uma experiência cultural que faça vibrar nossa alma, é quando a gente se sente parte da criação de alguém, é quando existe a cumplicidade, é quando a obra passa a ser uma ponte que conecta dois mundos. Por conta disso, acredito num conceito que chamo de partilha, ou compartilhamento, ou seja, não basta termos um êxtase criativo, uma epifania pessoal, é possível – e até necessário - dividirmos isso com o próximo. E esse doar é exatamente a produção de uma obra, seja em que linguagem for e a consequente apresentação desse trabalho aos nossos semelhantes. É por isso que os escritores publicam seus livros, que artistas visuais expõem, que músicos gravam, etc, para compartilhar, para permitir que outros sintam também suas estesias e as emoções que somente a fruição de uma obra de arte permite. Uma obra de arte não precisa ser outra coisa senão um elo entre duas almas com afinidades estéticas.

10- Que imagem traduz com mais Poesia Tchello d’Barros?

T.d’B.: Honestamente, penso que o ideal seria que essa questão fosse respondida pelas pessoas que tiveram ou têm algum contato ou conhecimento sobre os trabalhos que tenho produzido e apresentado nesses últimos vinte anos em dezenas de publicações e cerca de uma centena de exposições, entre individuais e coletivas. Sem querer pecar pelo excesso de modéstia, penso mesmo que é a opinião das pessoas que mais conta, o quanto tais trabalhos tem impactado ou sensibilizado o público. Essa é a verdadeira bússola que pode nos dizer se uma imagem ou um texto de nossa autoria acrescentou algo na vida de alguém. Pessoalmente, por mais utópico ou quixotesco que possa parecer, vejo-me como um soldado, que apenas segue em frente apesar das condições do campo de batalha. Essa analogia metafórica é um pouco a condição de cada artista em nosso país, onde o mercado da arte, as políticas públicas da cultura, os meios de comunicação, os interesses acadêmicos e todos os componentes que formam o sistema da cultura são ora um campo desértico, ora um campo minado, onde é necessária muita determinação para seguir em frente e encontrar aqui e ali algum oásis, alguma aurora redentora. E nesse fogo cruzado, não importam as intempéries, é preciso seguir em frente...





Carlos Correia Santos (PA) - poeta, dramaturgo, romancista e músico
entrevista por e-mail Tchello d'Barros para a revista impressa Magia e Versos, de Gisele Sant’Ana Lemos (RJ) e site Blogtok, de Portugal. Fev.2013


4 comentários:

soninha porto disse...

Tchello Barros e Giselle Sant'Ana, são duas pessoas que cruzo, normalmente, por aí, no virtual e em eventos, ele em Bento Gonçalves, nos congressos de poesias, ela em Búzios. Ele é um poeta visual dos mais admiráveis de nosso tempo e ela uma ativista cultural das boas. Agradeço a oportunidade de divulgar tão bela entrevista e confesso a vocês que estou encantada de ser lembrada por tão importantes pessoas. Um abraço e sucesso!

Kedma O'liver disse...

Tchelo, grande poeta e artista...um dos melhores em artes visuais que conheço. Uma pessoa que, com toda bagagem cultural e toda classe sabe tratar a nós, admiradores e principiantes, como igual e com carinho. Abraço e respeito a tua obra, moço. Sucesso sempre.

Reggina Moon disse...

Gostei muito da entrevista, muito bom poder conhecer mais do seu trabalho. Parabéns!!

Bjs!
RMon

Unknown disse...

Tchello Barros, tem poesia tatuada na alma. Além de generoso, tem um trabalho primoroso. Seu nome pontua a poesia visual contemporânea pela qualidade e acuidade. Está de parabéns Carlos Correia Santos, pela escolha e Tchello, grande artista e realizador. Bjuss Marcia Mendes

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