12 março 2017

Vivencias da madrugada


Vivencias da madrugada 

                 Romero se deu conta da existência do preconceito de uma maneira curiosa, pois deparou-se com ele pelo lado de quem está praticamente resguardado; na verdade mal sabia ele que o racismo sempre fez parte do seu meio, dos seus amigos de escola, da cidade, do bairro, do prédio onde vivia e, até mesmo, dos olhares críticos de seus familiares... Ele até poderia falar que o racismo era sutil, mas não poderia ser tão atrevido, debochado e perspicaz assim, por se tratar de um branco, heterossexual, de classe média, e não estar ciente da verdade dentro do corriqueiro dos seus amigos afrodescendentes. Romero estava com dois grandes amigos, o Grilo (amigo de longas datas) e Isaac (cinco anos que o conhecia), um viciado em quadrinhos de ficção científica, surfista, boa praça, comunicativo e extrovertido, morador de um apartamento mínimo em um prédio do bairro considerado uma cabeça de porco. Lá pelas altas horas, Romero e os amigos já estavam há tempos bebendo cerveja e comendo fritas em uma birosca antiga cuja o dono já fora seu sogro. Estavam no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, mais precisamente na rua Siqueira Campos, bem ao lado da subida da Ladeira dos Tabajaras. Naquela época era um ponto com a fama não muito boa, ponto de viciados, “aviões de drogas”, mas também pessoas comuns, transeuntes que compram cigarros, outros que param para pegar o ônibus e aqueles que só estão ali para conversar, namorar e beber. Ao saírem do bar entraram no breu silencioso da rua, na companhia de sombras, gatos e a sensação repentina de uma vontade louca de urinar. Ao longe uma viatura da polícia vinha subindo a rua; ao aproximar-se, a sirene dá um baixo e curto toque, se acende o giroflex e tão breve se apaga; os olhares se cruzaram e Romero dá de ombros abrindo um sutil sorriso de canto de boca ao reparar o som advindo da janela do primeiro andar de um prédio próximo: alguém gemendo em um possível ato sexual. O inevitável acabou acontecendo: foram parados. As portas se abrem ligeiras e saem dois policiais do carro: aquela típica dura na madrugada Carioca. Romero era o único branco, estava com sua roupa de passeio, quase um uniforme: bermuda de surfista, camisa da Hering lisa, tênis, meia branca e um boné surrado e de marca aquecendo sua cabeça; estava tranquilo, pois nada tinha nos bolsos, apenas sua carteira, um maço com dois caretas (cigarros) e um isqueiro da marca Zippo (presente dado por sua namorada atual). Romero soltou um ar com a boca e passou a mão em frente em um movimento estilo karatê, cerrou os olhos e touché! Estava com um bafo terrível, fétido, de uma cachaça barata, amarelada, que fora vendida como se fosse uma pinga legítima mineira. Na hora deu-lhe uma ligeira tonteira e acabou tudo misturado no pensamento, acabou por dar um arroto seco da cerveja que fermentava em seu estômago. O policial mais alto e meio troglodita, que tão logo foi obviamente rotulado mentalmente pelos três amigos de “mau-mau”, falou em voz firme, incisiva e deveras alta:
- Levanta o braço... cadê o fragrante? É melhor mostrar – disse olhando os outros dois de soslaio –, pois se eu achar vai ser pior!
O outro policial descruza os braços, dá um passo ligeiro à frente e intervém de forma amistosa: 
- Antes de tudo quero ver o respeito, todo mundo pianinho! – O policial aproveita a deixa do silêncio e conclui:
- Levantem a camisa, abaixem a cabeça, documentos nas mãos e podem abaixar também os braços.
Romero e os amigos tiraram as carteiras do bolso e as estenderam em suas palmas dando total sinal de submissão. Visivelmente Romero parecia um ser invisível, pois foi o único a não sofrer quaisquer pressões físicas e psicológicas. Ao contrário de Grilo e Isaac, não foi esculachado verbalmente e sequer teve sua carteira aberta; foi tratado com desdém enquanto observava todo o abuso nos tapas no peito, intimidação na fala, dedo na ponta dos narizes e até um empurrão em Grilo, que o jogou contra o muro e o pé em uma poça de água parada. Do jeito que Romero colocou sua carteira na palma da mão ela ficou; sequer foi vista ou aberta até o fim de todo o imbróglio. Enquanto assistia com o olhar soturno aos documentos dos amigos sendo iluminados pela lanterna dos guardas, e alguns vinténs e pertences caindo ao chão, sua mão continuava estendida e sem qualquer ingerência. De repente veio um empurrão circular ao Isaac; ele vai meio trêmulo em direção ao muro, onde é colocado de costas e tem as pernas abertas pelo coturno do guarda. O outro policial, batizado mentalmente por todos como “bom-bom”, guarda a arma, vai até ele e o examina meticulosamente dos pés à cabeça... num movimento violento o policial retira-lhe as chaves do bolso, alguns papeis com poemas escritos e um pacote de balas, sem achar enfim nada aparentemente ilegal. Agora ele dá um toque com a sola da bota na junta da perna, com a intenção de fazê-lo se ajoelhar, – mas não consegue –, então ele empurra seu ombro para baixo de forma grosseira até os joelhos jazerem no chão, bem ao lado de um despacho, e diz:
- Fique quietinho! Está querendo ganhar porrada?!
A luz do poste era ínfima, parecendo o cenário de um quadro de Caravaggio. Não havia movimento algum nos arredores, até os gemidos haviam cessados, era uma noite propícia para um crime de preconceito ou ódio; mas não ali, não naquela noite, não ali na zona sul e em Copacabana. Com certeza aconteceria em outro ponto da cidade. O bar já havia fechado suas portas, a água com a espuma cinza escura do sabão da lavagem do chão já escorria por debaixo da porta, atravessando a calçada e escorrendo correndo ligeira rua abaixo pelo meio-fio. E ali, os três, começaram a ouvir o sermão dos dois policiais:
- Sabe que odeio malandro? – Disse exaltado o policial mais alto e inquieto –; odeio gente que quer tirar onda com a cara de uma autoridade – e, em seguida, lançou um tapa na cara de Grilo que estalou ecoando pela rua, dando a impressão que ficaria aprisionado naquela rua escura e assombraria aos passantes por anos e anos. Em seguida o policial foi mais preciso:
- E esse relógio ai? – Disse com o dedo em riste e a voz meio pipocada; olhou rapidamente para Romero mas retornou o olhar ao Grilo – roubou aonde? – Agora com olhar de determinado e já com as duas mãos na cintura (uma flertando com a arma que se encontrava no coldre).
- Não roubei – disse Grilo em tom cauteloso que beirava um sussurro –, foi presente de Natal que ganhei dos meus pais.
Os policias devolveram os pertences e após alguns minutos que pareciam eternidades todos foram liberados.
Assim que a viatura em alta velocidade deixou a rua, um grupo de cinco jovens bem arrumados e com uma garrafa de uísque importada, despontou descendo a ladeira transversal, vindo de alguma festa. Um deles ainda segurava um cigarro de maconha, aceso, e olhou com certo desprezo para os três. Os outros riam e falavam ao mesmo tempo e tão alto que acabaram abafando o soluçar do choro que Grilo não conteve. 

André Anlub

11 março 2017

Insensatez...




Insensatez...
Queria ser sua insensatez
Assim, poderia sorrir para o 'meu' amor
E sonhar sempre mais
Ter amor para 'lhe' dar todo dia
Sem 'lhe' ter só em versos 'meus'
Em sonhos 'seus'...

Queria ser sua insensatez
Para poder todos os dias
'lhe' esperar acordar
De todos os sonhos 'seus'
De todos os enganos 'meus'...

Queria ser em um único dia seu
Sua maior razão de viver,
Aí, insensata seria Eu...

DúKarmona®

VALORES GENTE, URGENTE!

Ontem (sexta para sábado, 10 para 11 de março de 2017) estava vendo Saia Justa pela GNT, programa que falavam as apresentadoras sobre o preconceito ao negro no País.
Fiquei espantada com a informação, segundo a ariz Taís Araujo (parece que é a mais nova integrante junto com Astrid Fontenelle e Monica Martelli), a cada 23 minutos matam um negro no País. 
Fui procurar esta informação e sim, é verdade. 
Quem é brasileiro sabe, temos nas veias, sangue índio e negro, e mais, segundo as descobertas da ciência da paleontologia somos oriundos da África, na formação do mundo, portanto não tem raça branca, amarela ou negra, ou outra que inventem, mas sim raça humana, humanaaaaaaaaaa gente! 
Que preconceito é este? 
Porque este País é tão duro e cruel com seu povo, com seu irmão e nesta estatística estão também, crianças e pobres? Pessoas, muitas das quais são privadas de uma vida digna.
Que País é este? 
O bacana deste papo é que reforçam, e por ser um programa que aborda temas importantes e atuais, que as famílias estão desestruturadas e não conversam mais com seus filhos, todos vivem a correria da vida e não falam sobre ter empatia com o outro, sobre respeito ao próximo, sobre os valores importantes para que enfrentem o mundo lá fora. Mais uma vez eu digo, nosso País é pobre, as pessoas estão lutando pela sobrevivência, e ainda têm que enfrentar o preconceito, é brutal! É imoral! Seja qual for, deve ser eliminado da cabeça das pessoas e da rotina da vida, sim virou rotina. 
imagem google

Dou minha mão à palmatória, trabalhei minha vida toda e não lembro de ter falado com meus filhos sobre isso, e faço "mea culpa", graças a Deus nenhum é preconceituoso e tem valores de consideração e respeito aos diferentes. Mas essa atitude é inadmissível, tem que orientar, é urgenteeee! 
Não consigo, me repetindo, me calar sobre a morte por estrangulamento da menina em Cachoerinha, nesta semana, aqui na grande Porto Alegre, o que vem reforçar que as famílias estão sendo displicentes com a educação de seus filhos, coisas assim não devem mais acontecer e enquanto eu viver vou gritar ao mundo: Basta! 
É hora de reaver nossos valores humanos!.

Vejam abaixo a notícia do BBC:

O link sobre a evolução humana: 

02 outubro 2016

Poemas à Flor da Pele chega aos seus 10 anos.



Dizer que foi uma tarefa fácil conduzir um grupo com tantas diversidades seria mentir, mas, Soninha Porto o fez com grande maestria, com muita classe, jogo de cintura e principalmente muito amor.
Para comemorarmos em grande estilo este momento não bastava apenas uma linda festa, era preciso mais, era preciso algo que marcasse e nada melhor do que poesia para deixar o ar impregnado de “Poemas à Flor da Pele” e entra em cena então nosso concurso de poesias. Concurso este que deu grande trabalho aos seus jurados, as obras são de alto nível o que gerou dúvidas em suas escolhas, foi preciso mais dois jurados para que os desempates acontecessem.
A premiação é mera formalidade de incentivo a quem participou, ganhamos nós a cada concurso, antologia, saraus ou eventos realizados.
Viver, divulgar, incentivar cultura é algo grandioso embora saibamos que, por mais esforço que se faça não atingimos o patamar desejado. Estamos engajados em uma luta, semeando para que o futuro seja próspero e rico culturalmente. Poemas à Flor da Pele fez e continuará fazendo sua parte.

Foram nossas juradas no Concurso Dez Anos Poemas à Flor da Pele:

Ana Mello, escritora, coordenadora do Sarau Palavra Falada, do MARGS - Porto Alegre/RS,
Cristina Macedo, Professora, escritora, poeta e Coordenadora do Sarau da Zona Sul, Porto Alegre/RS,
Dyandreia Portugal, jornalista, escritora e Coordenadora do Grupo Rede Sem Fronteiras/RJ,
Maria Goreti Rocha, professora, escritora e poeta - Vila Velha/ES,
NIna Antonioli, professora, formada em Letras - Porto Alegre/RS
Zaira Cantarelli - escritora, poeta, Coordenadora do grupo Vivapalavra/RS, 

Resultado final do concurso:

1º Álvaro Luiz Cardoso – Outras Madalenas 

Outras Madalenas

Outras Madalenas virão
Arrependidas ou não
Outras Helenas, Ivetes e Marias
Passarão por estas ruas devassas
E serão bebidas nas taças
E serão comidas nas praças
Com sofreguidão.
Outras Madalenas virão
Com suas costas largas
Propícias às descargas da raça.
Enquanto houver desejo, cachaça e grana
Nunca será de graça
Alguém será sacana.
A lascívia exposta como uma fratura
Sorvendo a dor do mundo pela rachadura
Vítima do escárnio da estrutura corrosiva
Do jugo monetário e sua Fúria
Do vício e do asco da Luxúria.
Então, quem atira a primeira pedra?
Então, quem dispõe de uma moeda?
Então, quem vai se coroar “O Impoluto”
Com o estatuto da moral se enfiando
Bem no meio do assunto?
Onde houver Luxúria, Cachaça e Grana
Alguém haverá de ser sacana!
Outras Madalenas virão
Arrependidas ou não
Outras Helenas, Ivetes e Marias
Passarão por estas ruas devassas
E serão bebidas nas taças
E serão comidas nas praças
Com sofreguidão.
Outras Madalenas virão
Outras de outros nexos
Outras Marias, Juremas, Ernestos, Joaquins
Alexias, Rogérias, Blanches e Graças
E serão bebidas nas taças
E serão comidas nas praças
Com sofreguidão

Pseudônimo: Faustino D'León

2º Ana Luiza Conceição Poema 1 A poesia anda solta 

A poesia anda solta

A poesia anda solta 
fazendo baderna 
encostada nos muros 
da beira do caís 
Discursa nas praças 
cochicha nos bares 
estampa os jornais 
A poesia anda louca 
fugindo dos poetas 
que a seguem irrequietos
Cansada do tédio 
a poesia quer ... mais!

Pseudônimo: Gaia

3º Carla De Sà Morais – Esvoaçar

Esvoaçar

Verei o mar dos meus terraços
Na chegada das noites tristes ou risonhas
Despir-me-ei em desabafos dos meus segredos
No silêncio das tempestades medonhas
Quando nuvens cinzentas conspirarão enredos
Do romance das cortinas de seda
e do vento que entra sem pedir licença
Aproveitarei esse esvoaçar
para me enrolar no teu corpo doce
Apagarei a dor da convalescença
Renunciarei aos meus cansaços
Para que o amor na noite se esboce

Pseudônimo: china

Menção honrosa
Amélia Luz – E por falar em Maria, 

Ana Luiza Conceição – Surreal 

Arahilda Gomes – Devaneio 

Soninha /Athayde – Divisão 

Jania /Souza - Quando pari-se o Poema 

Ana Luiza /almeida /ferro – os dois poemas 

Quando e o Gigante do largo dos amores
Ro Goldoni – Notas de bergamota 

Marcia Etelli – A paixão dispara o amor vibra 

Gondar – O amor

Tema Moreira – Necessariamente 

Ubiratã Soares – Matutino

Elaine Maria Goulart Nunes Monalisa

Parabéns a todos os participantes, jurados, membros da Associação Poemas à Flor da Pele, admiradores e seguidores do grupo. Nada seria possível sem a presença de cada um de vocês.

Claudete Silveira
Diretora da Associação Poemas à Flor da Pele

01 setembro 2016

11 agosto 2016

07 agosto 2016

10 ANOS POEMAS À FLOR DA PELE:


Imagens de eventos 2015/2016 (Blumenau/SC, Porto Alegre e Sapiranga/RS)


Associação Cultural Poemas à Flor da Pele: são dez anos transformando palavras em poesia, desconhecidos em amigos, encontros em eventos culturais. Uma ideia que rompeu a película do virtual e hoje é uma realidade que se faz presente em todo o país. Venha comemorar conosco esta conquista e receber sua justa homenagem. Você faz parte dessa história.” (Basilina Pereira)

​Vamos fazer a diferença no meio cultural? 
Poemas à Flor da Pele é um grupo que tem a bandeira da Poesia nas mãos, venha comemorar com a gente!

Soninha Porto
Presidente Associação Cultural Poemas à Flor da Pele



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